Ásatrú, Heathen e outros nomes

Há mais ou menos um milênio atrás, os povos conhecidos como germânicos ainda (em alguns lugares) mantinham sua cultura não-cristã, e faziam os primeiros contatos com essa religião do oriente.

Este contato nem sempre foi fácil: o cristianismo ocidental cresceu nas cidades romanas, e encontrando os povos germânicos, com sua cultura primariamente rural, não sabiam exatamente como lidar com isso.

Mas eventualmente, a conversão aconteceu, pouco a pouco, e estes povos — que até então seguiam os diversos deuses germânicos — passaram a adotar o jeito novo de ser. Era assim que eles se referiam à nova religião, porque nas línguas germânicas antigas, a palavra “religião” não existia.

Religião nunca foi algo distinto dentro da cultura germânica — ela permeava todos os aspectos da vida desses povos, não existia como algo “à parte” de sua cultura. Assim, ela não tinha um nome. Era simplesmente a maneira como eles faziam e sempre fizeram as coisas. Este caminho se opunha ao jeito antigo, pagão, gradualmente abandonado pelos diversos povos germânicos.

Eventualmente, os séculos passaram e grupos distintos de pessoas, em países distintos, começaram a lançar as raízes do movimento de reavivamento da religião germânica pré-cristã.

Mas, no mundo moderno, foi preciso dar um nome a essas coisas. E muitos nomes (e como consequência, vertentes) surgiram dentro deste movimento.

Um dos termos mais usados no Brasil em referência ao paganismo germânico é Ásatrú (seus membros sendo chamados de ásatruár), um termo islandês que significa basicamente “fé nos Æsir” (ou, alternativamente, fiel aos Æsir), alternativamente grafado como Asatru, sem acentos (ou Åsatro em algumas línguas escandinavas).

Usado originalmente pela organização islandesa Ásatruárfélagið, o termo tornou-se bastante popular com o passar dos anos (e com o crescimento da popularidade desta organização no exterior), mas vem decrescendo em uso em favor do termo mais genérico heathen, sobre o qual já falei em outro post.

Assim, o nome Ásatrú vem caindo em desuso, e passa a tornar-se uma vertente, uma mais focada nos povos escandinavos, em especial aquele da Islândia.

(Em alguns meios, inclusive, o termo pode ser considerado meio pejorativo, como um iniciante, um “noob”, mas isso não é exatamente relevante ou real. Fica apenas como aviso, caso você, ásatruár assumido, encontre essas pessoas.)

Em contrapartida, o termo heathen vem ganhando popularidade como uma forma mais genérica que contempla todas as vertentes e possíveis regionalismos da religião. Assim, atualmente, heathen é considerado gênero que engloba basicamente todas as variações.

E existem outras, muitas outras.

Há o Odinismo, movimento originado no romantismo Völkish alemão, herdado pela dinamarquesa Else Christensen e propagado com uma agenda fortemente racialista e neo-nazista. O termo, atualmente e especialmente no Brasil, não é necessariamente associado ao racialismo; muitas pessoas usam apenas como sinal de sua crença em Odin, mas a história diz o contrário, e é sempre bom tomar cuidado com tais “impressões” inocentes.

Existem as vertentes conhecidas como Vanatrú, que focam mais nos deuses Vanir que nos deuses Æsir — variação essa muitas vezes encontrada em conjunto com a Ásatrú, como Ásatrú Vanatrú.

Existe o Theodismo, que possui um foco fortemente reconstrucionista a nível socio-cultural, incluindo hierarquia e estrutura social antigas, no contexto anglo-saxão, criado por Gárman Lord.

Além, há a Forn Siðr ou Forn Sed (lit. “caminho antigo”), que possui variantes na Dinamarca, Suécia e Noruega.

E outras como Thursatrú, Rökkatrú, neopaganismo nórdico, paganismo nórdico… quase todas com suas próprias crenças, peculiaridades e variações distintas.

Eu, a autora, me identifico, quando necessário, como heathen. Às vezes uso o termo ásatruár por ser mais comum e reconhecido no Brasil, embora não esteja muito alinhado com minha própria prática ou ideologia.

Pode parecer bobagem ficar pensando sobre que nome usar, e quando, e quais são as implicações de um nome ou outro. Mas palavras têm significado, e quando nos declaramos isso ou aquilo, é sempre bom estamos cientes da forma como somos vistos e interpretados por outrem, para não termos surpresas desagradáveis.


imagem: Heath. Foto por Andy Smith, via Flickr

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