Irmandade e visão de mundo

É bastante comum ver novos heathens (ou ásatruár, ou até mesmo pagãos em geral), empolgados com a descoberta de outros heathens ou pagãos, cumprimentá-los da maneira: “Hail, irmãos!”

Irmandade é uma coisa interessante. A visão de mundo dos povos germânicos pré-cristão é bastante fundamentada em irmandade, e nos laços familiares. Não é à toa que honramos nossos ancestrais e que quebrar um juramento é uma das piores coisas que se pode fazer. A visão de mundo desses povos era profundamente enraizada na comunidade e na solidariedade mútua intra-tribo, intra-clã, intra-família.

E quando dizemos família, dizemos no sentido mais amplo. Pai, mãe, irmãos, irmãs, tios, tias, primos e primas, e suas famílias associadas, formam a grande e interconectada rede de relacionamentos de um germânico antigo. Essa rede é seu ponto de apoio, onde sua sorte é compartilhada, onde sua reputação importa, onde sua vida e sua fama crescem.

Isso tem consequências. A principal delas é que pessoas fora dessa rede — da sua tribo, da sua família, do seu clã — não necessariamente irão importar muito. Ao contrário, elas podem ser prejudiciais à sua tribo, ou família, ou clã. Assim, respeitando-se as leis de hospitalidade, o estranho é tratado com, no máximo, uma polida desconfiança.

Não será maltratado, claro. Não era bem assim. Mas também não terá a mesma importância ou privilégio que o seu familiar, seu parceiro de tribo, àqueles a quem você deve, direta ou indiretamente, sua subsistência, reforçada pelo ciclo de reciprocidade.

Isso é típico de uma religião que é essencialmente tribal. A tribo é, de certa forma, seu universo.

E isso é também em oposição às religiões universais que, teoricamente, dentro de seu credo, declaram pertencer e abarcar a todos. Assim, todos que a ela pertencem são irmãos; ela é o grande traço unificador.

O que isso tem a ver com o início desse post? Simples. Assumir uma relação próxima com um desconhecido — chamando-o de irmão — é algo bastante contrário à visão de mundo heathen. Estranhos, mesmo que da mesma religião, não são seus irmãos, simplesmente em virtude da religião que professam, porque irmandade é mais importante que isso. É mais profunda que isso. É mais real que isso, dentro do paganismo germânico. Só porque você tem a mesma religião que eu, não significa que nós compartilhamos nada mais.

Isso quer dizer que é uma ofensa enorme chamar os outros de irmãos? Claro que não. As gírias, os informalismos da vida, levam a isso. Mas considerar estranhos realmente como irmãos — isso já apresenta problemas. Nós não somos irmãos sob Odin. Aqui não funciona como “todos são filhos de deus”. Não é assim que o paganismo germânico funcionava, e não há absolutamente nenhum motivo para criar essas relações artificiais — até porque, a diversidade cultural dentro das tribos germânicas existia, e por que não haveria de continuar existindo?


imagem: New Forest National Park, Reino Unido. Foto por Annie Spratt, via Unsplash

 

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