Virtudes, visão de mundo e Ásatrú

Quem começa a estudar Ásatrú, logo de cara encontra um conceito bastante falado: as Nove Nobres Virtudes (NNV), espalhadas como “preceitos” que todo ásatruár deve seguir, elevadas como virtudes presentes e valorizados pelos nórdicos (ou escandinavos) antigos e que orientavam sua forma de vida. São elas: coragem, verdade, honra, fidelidade, disciplina, hospitalidade, auto-suficiência, industriosidade e perseverança.

Bem, eu não vou questionar a qualidade ou a validade de tais virtudes. Obviamente que são todas coisas importantes para qualquer ser humano decente. Não é absurdo dizer que uma pessoa boa (de qualquer religião) deveria ter essas qualidades.

Mas há algo de… simplista, em pautar uma visão de mundo em apenas nove substantivos — que, novamente, são características desejáveis em qualquer ser humano. Não há nada de particularmente heathen (ou até ásatruár) nestas virtudes; eu diria que são (ou deveriam ser) universalmente praticadas, em maior ou menor grau.

É claro, embora úteis e de certa forma realmente presentes entre os povos antigos, estas virtudes estão longe de ser,

  1. alguma lista antiga de “mandamentos” que devem ser seguidos,
  2. particularmente heathens.

Então, por que existe esse foco tão grande entre aqueles que se dizem ásatruár?

Existem diversos motivos para isso, e não vou pretender entender todos eles. As Nove Nobres Virtudes foram criadas pela organização inglesa Odinic Rite (ironicamente, uma organização acusada de ligações com movimentos neo-völkish, de cunho racialista e separatista), presume-se para seus próprios membros. Posteriormente, a Ásatrú Folk Assembly adotou uma lista derivada similar. A partir destas organizações, outras começaram a adotá-las e o termo espalhou-se no meio Ásatrú, popularizando-se de tal forma que passou a ser — basicamente — considerado como um padrão.

E de certa forma isso é bom, pois são bons valores a se promover. Mas de outra forma, também podem ser “negativas”, não as virtudes em si mesmas, mas a maneira como, muitas vezes, elas fazem um papel substituto à própria visão de mundo que acompanha as religiões germânicas antigas.

Há sites e pessoas por aí dizendo que “basta seguir as virtudes e acreditar nos deuses” e você já é “ásatrúar”. E longe de mim dizer quem é ou não é qualquer coisa, mas, a meu ver, há muito mais que simplesmente nove virtudes na cultura antiga — há toda uma riqueza, uma visão de mundo, que eu, pelo menos, considero como fundamental para se ter um entendimento completo da religião e cultura que professo admirar.

Não é uma questão de emular o passado em sua totalidade, até porque isso é impossível. Mas a maneira como aquelas pessoas enxergavam o mundo, os deuses e suas práticas, isso sim tem seu valor — conceitos como fridr, o ciclo de reciprocidade, até mesmo a própria honra, que não necessariamente é interpretada da mesma maneira (a honra antiga tem a ver com fama, com sua reputação intra-tribo, e não com algum código interno).

Tais conceitos, embora muitas vezes apresentem tais virtudes, não necessariamente se limitam ou se definem por elas, e é isso que faz de um heathen, heathen — sua perspectiva de vida, muito além de nove palavras vagas.


imagem: Holzminden, Alemanha. Foto por Nicolai Duerbaum, via Unsplash

 

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