A morte e depois dela, parte I

A morte é um assunto que sempre desperta muito interesse em humanos — principalmente, o destino que teremos após dela.

Toda religião, até mesmo religião nenhuma, tem uma resposta para essa questão: alguns acreditam em reincarnação, outros em um paraíso obscuro, em delícias extraordinárias, em castigos terríveis, ou que simplesmente deixamos de existir.

papiro
Fotos combinadas de papiros, representando a viagem ao submundo egípcio. Por Keith Schengili-Roberts, via Wikicommons.

É fato que a morte é o Grande Mistério: algo que não podemos, definitivamente e sem sombra de dúvidas, saber até o momento em que nós mesmos deixamos este mundo. Se a história nos diz algo, é que parece ser quase inconcebível para a maioria das culturas antigas (se não todas) que não exista uma continuidade, uma sequência dessa existência. Qual seria essa existência futura (se é que há), bem, isso é onde divergimos.

Os povos indo-europeus antigos acreditavam nessa continuidade. Pessoas morrem e elas continuam existindo e vivendo, mas uma existência diferente, uma existência oculta, subterrânea. E acreditavam que era realmente uma existência subterrânea: os corpos eram sepultados com alimentos, com armas e seus pertences, com utilidades e até mesmo com escravos e animais como cavalos e cães. O sepulcro era seu novo reino, sua nova casa.

Entre os germânicos — um povo indo-europeu — não era diferente. Ibn Fadlan traz um relato detalhado sobre os ritos funerários do povo Rus, descrevendo que toda a riqueza do morto foi gasta em roupas e materiais novos, enterrados com ele. Menciona inclusive um túmulo temporário onde o morto era abrigado, com uma lira para se distrair, antes de ser removido para sua câmara funerária oficial.

Burial mounds, em português conhecidos como mamoas, diversos já foram encontrados com objetos e restos animais colocados junto do corpo do morto. Estas mamoas constituíam montes de terra, cobrindo uma câmara funerária onde os corpos e diversos objetos eram deixados de maneiras bastante específicas. Câmaras funerárias onde mortos especiais são sepultados com grande pompa são encontradas praticamente no mundo todo; um costume que parece transcender culturas.

640px-Raknehaugen
Raknehaugen, maior burial mound (em norueguês bokmål, haugen) da Noruega. Tem 77 metros de diâmetro e 15 metros de altura. Ao redor encontram-se vários outros montes menores. Provavelmente construído entre 533 e 551. Por Tommy Gildseth, via Wikicommons.

Em tempos mais modernos, até navios eram enterrados em funerais de homens e mulheres de destaque.

osenberg
Navio encontrado sepultado em um grande monte na fazenda de Osenberg, próxima a Tønsberg em Vestfold, Noruega. O navio continha diversos itens sepulcrais e os esqueletos de duas mulheres. É o navio viking mais preservado que conhecemos. Imagem via Wikicommons.

Isso acontece porque há fortes indícios que a crença antiga associava o corpo com a alma. As libações e oferendas eram deixadas no sepulcro — junto ao corpo. Inúmeros relatos se perpetuam até hoje de fantasmas, de espíritos inquietos cujos corpos não foram sepultados ou encontrados, e que atormentam os vivos até estes descobrirem o corpo e (presume-se) dar um fim correto aos restos mortais.

Assim, a ideia que as almas “viajam” para algum lugar, que deixam seus corpos para algum outro mundo onde vivem juntas, é relativamente recente. A alma, embora pudesse viajar e transcender o corpo, mantinha-se ancorada a ele, e isso não muda após a morte.

As religiões pré-cristãs indo-europeias, em sua maioria, aceitam o mundo. O mundo físico não é desprezível, pior, ou mau. O mundo físico simplesmente é, tudo dentro da existência e da realidade em que vivemos. E os mortos permanecem, invisíveis e até mesmo intangíveis mas não menos materiais e vivos por isso, e não menos ligados a nós.

A eles são dadas oferendas, honrarias, com regularidade. Seus nomes são evocados e chamados em nosso auxílio, suas histórias perpetuadas e sua memória preservada. São sepultados junto à família, junto de suas casas, onde possível, ou em cemitérios ainda acessíveis quando necessário, em centros mais urbanos. E familiares são sepultados juntos.

É bastante diferente da noção cristã de um mundo transcendente, um Paraíso, para onde a alma imortal se dirige e se distancia das coisas terrenas, mundo este considerado imperfeito. Essa noção traz o pós-vida, o transcendente, como algo almejável, desejável, superior à vida, o que não é o caso nas religiões antigas.

paradiso
Rosa celeste: Dante e Beatrice olham o mais alto Paraíso. Ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia de Dante Alighieri. Via Wikicommons.

Mas mesmo no contexto cristão, ainda há indícios de certos cuidados com os corpos. Aqui mesmo no Brasil, não é estranho ver milhares de pessoas dirigindo-se a cemitérios, principalmente no dia de Finados, e deixar “oferendas” na forma de flores, velas e até mesmo objetos que o morto goste. Tradições desse tipo são comuns, especialmente na América Latina, uma das mais populares sendo o Día de los Muertos mexicano, que mistura aspectos pré-colombianos e cristãos na celebração dos mortos.

514px-altardediademuertos
Altar tradicional de Día de los Muertos, Milpa Alta, México DF. Foto por Eneas de Troya, via Flickr.

Desecrar sepulturas ainda é crime, e ladrões de cadáveres são tratados como tal. Quando pessoas famosas morrem, ou até mesmo quando tragédias ocorrem, não é raro vermos “oferendas” deixadas em pontos estratégicos, como forma de lembrança e, de certa forma, um culto àqueles que morreram.

Ora, se o corpo é apenas uma casca onde a alma habita, o que faz com que os corpos sejam tão importantes assim? Talvez certos traços culturais mais antigos que não se apagaram, e acabaram incorporando-se à nova cultura, com maior ou menor sucesso, mesmo que separados de sua origem antiga.

Então podemos concluir que o culto aos mortos é bastante antigo e basicamente onipresente em culturas humanas. Estes cultos são, naturalmente, ligados ao culto aos ancestrais — aos nossos mortos, os mortos de nossa família, que compartilham de nossa origem. Isso será assunto da parte II desta série sobre a morte, e o que vem depois.


Imagem Skull por Julia Borysewicz, via Free Images

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s