A morte e depois dela, II: culto ancestral

Nós veneramos os mortos, aqueles que vieram antes de nós.

Mas não é todo e qualquer morto que faz parte deste rito. São aqueles que tem razão e interesse em preocupar-se conosco — nós, humanos, nas mais diversas culturas, desde as ameríndias à japonesa, temos por costume venerar nossos ancestrais. Não necessariamente como deuses — embora em algumas culturas (como na China pré-dinástica, e em algumas outras culturas asiáticas), absolutamente como deuses. Ou, se não deuses, como seres bastante próximos deles.

Algo mais que humano, mas menos que divino.

Em alguns casos, pelo menos.

O que, se pararmos pra pensar, faz perfeito sentido. Afinal, de todos os diversos seres e criaturas que permeiam mitologias e folclores, a única que podemos dizer, sem sombra de dúvidas, com 100% de certeza, que existiram, são nossos ancestrais. Mesmo que não saibamos quem são eles.

Se a vida não se encerra aqui, se não há um término, mas uma continuidade (quer separada do corpo, quer não), quem se importaria mais conosco que nossos ancestrais? A eles, os ancestrais mortos, é reservado um conhecimento e um poder alheio ao nosso, uma existência diferente, separada. Na morte eles se tornam maisoutros, seres além de nossa percepção, mas, de certa forma, ainda presentes.

A vida continua, mesmo na morte.

Entre os gregos e romanos antigos, até mesmo antes do nascimento do culto aos deuses greco-romanos que conhecemos, havia o culto familiar, o culto doméstico: o culto ancestral, centrado na casa, no fogo sagrado mantido dentro da propriedade, do domicílio de uma família.

Em épocas determinadas, oferecia-se um verdadeiro banquete, cozinhado no fogo sagrado, e deixando junto do túmulo do ancestral, algo feito somente por seus familiares — aqueles que pertenciam a seu culto doméstico.

Em Roma, esse culto deu origem ao culto aos Lares, frequentemente confundido com os Penates (deuses-ancestrais, associados ao fogo sagrado e ao lar) e com os manes (espíritos ancestrais), inclusive na própria literatura da época. Os Lares, assim como as matronae germânicas, podiam ser tanto domésticas quanto de um bairro e até mesmo da cidade, encruzilhadas e caminhos; percebe-se que o culto ancestral muitas vezes se mistura com o culto a espíritos protetores diversos.

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Lararium da casa de Vettii: dois Lares flanqueando um genius (espírito) ancestral, acima de uma serpente, símbolo de fertilidade e prosperidade. O genius ancestral carrega incenso e uma tigela de oferenda, e está vestido com a toga cerimonial usada em sacrifícios. Via Wikicommons.

O fogo sagrado, posteriormente, foi associado à deusa Vesta, considerada a deusa do fogo doméstico — sempre virgem e pura, assim como as vestais que protegiam o fogo sagrado de Roma, pois o fogo sagrado não tem máculas: nada impuro é dado a ele, nem atos impuros acontecem diante dele. Este culto ao fogo sagrado também está presente na religião védica, sob o nome de Agni.

Isso era tão forte entre gregos, romanos e até mesmo hindus, que a terra onde os ancestrais estavam sepultados (que era de propriedade da família), a casa onde o fogo ancestral residia, não podia ser vendida nem passada a terceiros. Perdia-se a liberdade individual por dívidas, mas a propriedade onde a família se estabeleceu não pertencia a um ou dois indivíduos, mas à linhagem, e, portanto, não era permitido desfazer-se desta propriedade. A pior das situações acontecia quando a linhagem (patrilinear) se extinguia.

Bastante diferente da vida moderna, em que dificilmente uma propriedade permanece na posse de uma família — muitas vezes, nós mesmos nos mudamos durante nossas vidas, múltiplas vezes. O vínculo com a terra e os ossos ancestrais se desfaz.

Na falta de herdeiros homens (pois o culto ancestral era patrilinear, levando-se em conta que filhas, ao casar, deixavam de lado sua família de sangue para assumir o culto familiar do marido, sob o qual criará seus filhos), procurava-se herdeiros colaterais, como sobrinhos, tios e até mesmo netos — desde que estes fossem relacionados pela linha patrilinear.

Também era permitida a adoção: neste caso, o filho adotivo deixava seu próprio culto familiar, para assumir aquela da família adotiva. Não era permitido cultuar duas linhagens ancestrais, e o processo de adoção tinha cunho religioso, assim como a cerimônia de casamento.

Note que fica bastante claro que consanguinidade, embora importante, não era uma necessidade absoluta. Filhos adotivos podem perfeitamente venerar seus ancestrais adotivos. Mais importante que o sangue, são os laços de reciprocidade estabelecidos com os ancestrais.

Na China pré-dinástica, adoravam-se os ancestrais, deixava-se oferendas a eles, e havia a crença que quanto mais distante o ancestral, mais poderoso ele é, e portanto, mais influente. Desta forma, quando se precisava de ajuda sobrenatural, apelava-se aos ancestrais — quanto maior o problema, mais alto se “escalava” o pedido. A veneração aos ancestrais permanece até hoje na grande maioria das crenças asiáticas, inclusive no taoismo moderno.

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Tartaruga suportando a estela Shengong shende (“méritos divinos e virtudes santas”), comemorando o emperador Hongwu, erguida em 1413. Via Wikicommons.

Na crença Shinto, nativa do Japão, até hoje, quando nasce uma criança, escreve-se o nome dela em uma lista de um santuário Shinto, declarando-a como uma criança da família. Ao morrer, ela torna-se um kami familiar — um espírito ou deidade ancestral.

Ou seja, as mais diversas culturas adoravam a seus ancestrais — se não como deuses, veneravam-nos como seres capazes de intervir em favor da família, como seus protetores.

E entre os povos germânicos?

Entre os povos germânicos não era diferente. Acredita-se que a adoração aos ancestrais (ou veneração), acontecia dentro de casa, e muito provavelmente liderada pelo patriarca da família, que por sua vez passava a seus filhos (em especial o filho mais velho) os ritos familiares. Ela era, muito provavelmente, centrada no fogo doméstico, aquele feito no centro da casa, que era usado tanto para cozinhar os alimentos como para aquecer o ambiente — basicamente, o coração do lar.

Sente-se a presença dos ancestrais na fertilidade da terra, na sorte da família. Literalmente, pois acreditava-se que a sorte viajava através da linhagem — mas isso será assunto de outros posts. De qualquer forma, a sorte familiar, a fertilidade e prosperidade da família estão fortemente ligadas aos ancestrais, tanto quanto estão ligadas aos vivos.

A crença na potência dos ancestrais sepultados em uma propriedade é tão forte, que com o passar dos anos, começou a dissolver-se a fronteira entre o que é um ancestral humano e o que são elfos e vettir diversos — algumas seres folclóricos, como o tomte sueco, acredita-se terem sua origem no culto ancestral e na permanência da essência desses ancestrais na terra, como protetores. Elfos, muitas vezes, pensava-se protegiam as câmaras funerárias e os montes onde ancestrais descansavam.

Na região da Alemanha, Frísia e Gália encontramos centenas de pedras votivas dedicadas às matronae: as mães-ancestrais, geralmente representadas em grupos de três. Estas entidades cruzavam a fronteira entre mães ancestrais, vettir e deusas: a elas eram feitas oferendas, principalmente de frutos, peixes e carnes, e eram representadas em relação à terra, vida, nascimento, e fertilidade em geral.

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Altar às três matronae, encontrado em Colônia, Alemanha. Via Wikicommons.

O interessante das matronae é que seu culto é regionalizado, quando não claramente familiar. Algumas levam o nome de rios, lagos e localizações geográficas; outras, nomes relativos à sua função (protetora, benevolente, etc.).

Estas pedras votivas às deusas-mães-ancestrais sempre tem nomes que remontam a povos germânicos ou celtas, mas as inscrições são em latim — provavelmente escritas por soldados que serviam às tropas romanas, mas eram germânicos e celtas em sua origem. Assim, acredita-se que o culto às mães ancestrais pré-date a chegada dos romanos, e que as pedras votivas com inscrições latinas são apenas continuidade desta crença.

Já na Escandinávia, existe o culto às dísir — as equivalentes escandinavas das matronae continentais. Ao contrário das matronae, as dísir não costumavam ter nomes, e sua relação com os rios e nascentes desaparece, embora não seu aspecto ancestral.

As dísir, assim como as matronae, são protetoras do lar e da família, desde tempos imemoriais, e consideradas, de certa forma, associadas à urdr da família — Saxo Grammaticus as chama, inclusive, de norns, embora a relação não seja clara. Sua presença pode ser tanto positiva, levando a sorte familiar, quanto negativa — há relatos em sagas de dísir vingativas, inclusive causando a morte de alguns familiares.

Como as matronae, existe um aspecto de fertilidade associado às dísir, mas também são associadas à guerra: em alguns pontos, as dísir tornam-se indistinguíveis das valkyrjas (chamadas de “dísir de Odin”). Também há pontos no folclore onde se mencionam landdísir — versões femininas dos landvettir. A palavra dís (forma singular de dísir), por si só, pode significar tanto deusa como mulher. Não é a toa que Freyja recebe o nome de Vanadís — dís dos Vanir.

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Dísir, ilustração por Dorothy Hardy em Myths of the Norsemen from the Eddas and Sagas, 1923. Via Wikicommons.

Ou seja, assim como aconteceu em outros pontos do mundo, a distinção entre elfos, vettir, espíritos guardiões, etc., é bastante tênue.

Assim, é sempre bom apaziguar e manter os ancestrais (e as ancestrais) em bons termos.

Dito tudo isso. Como podemos venerar nossos ancestrais?

A beleza do culto ancestral é que ele deve, por força, ser personalizado de acordo com cada família. As formas mais comuns são a construção de um altar doméstico, onde se encontram fotos ou itens relevantes aos ancestrais. Neste altar oferecem-se alimentos e outras coisas que os ancestrais gostavam — de acordo com o gosto deles. Até mesmo flores, velas, incensos, por que não?

É algo profundamente personalizado e pessoal. Se sua avó era louca por suco de maçã, era a bebida favorita dela, ou café, ou cerveja de determinada marca, porque não deixar tal item em honra a ela? Se possível — o que nem sempre é — pode-se deixar no próprio túmulo. Se não, em um altar dedicado aos ancestrais.

Minha bisavó paterna, por exemplo, tinha fixação por cervejas long neck; se fosse em lata ela não bebia. Ela bebia cerveja diariamente, até a sua morte. Faria perfeito sentido deixar uma garrafa de cerveja no túmulo dela, ou fazer uma libação em sua honra.

Este mesmo altar, tradicionalmente, pode ser mantido em uma área reservada, fechada ou “fora das vistas” de qualquer um, mas também não é incomum que se deixe tal aspecto de lado, principalmente considerando as dificuldades da vida moderna, onde nem sempre é possível “esconder” algo com facilidade. Quando possível, há uma preferência por essa reserva — como era o costume indo-europeu.

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Altar aos ancestrais vietnamita. Via Wikicommons.

De qualquer forma, o culto ancestral pertence à família: não é algo público, e há casos em determinados escritos antigos onde se pede que um visitante deixe o local onde tal ritual será executado. O culto ancestral é intensamente privado.

E quanto se executam tais rituais? Por que não estabelecer alguns dias — como por exemplo aniversário, tanto de vida quanto de morte, dia de casamento, datas importantes para a família, para lembrar e erguer um brinde especificamente à memória deles? Pode-se criar até mesmo elegias e poemas específicos em sua memória. Talvez até poemas e elegias que perdurem de geração em geração, criando novas tradições familiares.

Entre os povos escandinavos, a veneração ancestral costumava acontecer no período de inverno, quando se faziam os sacrifícios, estação essa que iniciava-se em nosso atual outono (e que pode ser ajustado de acordo com o clima e peculiaridades de cada região, respeitando o ciclo da natureza local).

Nesse período celebrava-se o Dísablót (após a celebração da colheita, no que hoje chamamos outono; no hemisfério norte, aproximadamente no mês de outubro), ou Modraniht, celebrado no período de Yule, entre os anglo-saxões.

O que faz sentido, pois no longo inverno escandinavo, era bastante comum que todos ficassem em casa, em suas residências, e começavam os abates de gado, para suportarem o inverno, facilitando tais rituais.

Associado a isso, e atualmente ainda celebrado (embora tenha perdido o aspecto religioso antigo), há o Disaþing, ou, “thing de todos os suecos”. Sabe-se pouco sobre a origem deste ritual, mas acredita-se tratar de uma thing geral, das diversas tribos e povos da antiga Suécia, entre fevereiro e março, onde eram celebrados grandes blót em honra das Dísir. Atualmente, celebra-se a Disting como um mercado geral em Uppsala, um evento ainda importante na Suécia.

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Disting em Uppsala, 2008. Via Wikicommons.

Não vivendo em tais locais, e muitas vezes sequer na mesma situação rural, podemos criar nossos próprios ritos e estabelecer nossas próprias datas, de forma consistente. Modraniht, por exemplo, era comemorada no ano novo — comemorando as mães no nascimento de um novo ano, o que faz um certo sentido poético.

Os ancestrais que veneramos não são aquelas tênues lembranças de duzentos, trezentos, mil anos atrás (embora possam ser também); eles são aqueles que nos deram a vida, aos quais devemos, diretamente, nossa existência. Pais, avós, bisavós, etc..

E nem necessariamente são ancestrais biológicos. Há heathens que incluem nesse âmbito aquelas pessoas que, embora não sejam familiares, muitas vezes são tão família quanto — madrinhas e padrinhos (observe que esse costume, embora cristão, muitas vezes cria um vínculo forte entre os envolvidos; no caso não é a condição de padrinho ou madrinha, mas o vínculo, que se honra), amigos da família, amigos mesmo, que nos apoiaram e foram presentes durante nossas vidas, familiares adotados.

Há quem inclua até “heróis”: pessoas estranhas, celebridades, figuras notáveis, etc., que causaram impacto em nossas vidas.

(Eu, pessoalmente, deixaria estas pessoas em separado, ao culto dos heróis mesmo. Por mais que admiremos uma pessoa, cientista, celebridade, o que for, eu pessoalmente acho um pouco de presunção colocá-las no mesmo patamar que aqueles que foram diretamente responsáveis por nossas vidas.)

Muitas vezes parte da complexidade nesta veneração é a falta de informação sobre o ancestral. Nem sempre nós temos a felicidade de conviver com eles enquanto vivos, ou, às vezes, de sequer conhecê-los ou saber quem foram. Nestes casos, infelizmente, a única saída torna-se a pesquisa — perguntar para familiares vivos, pesquisar documentos antigos, até mesmo traçar a genealogia, quando necessário.

E àqueles de nós que, infelizmente, tivemos ancestrais “negativos”? Pessoas que nos machucaram, nos feriram? Diz-se que a pior coisa que pode ser feita a um morto, é o esquecimento dele. Não honrar um ancestral é tão significativo quanto honrá-lo. Geralmente, entende-se que o ideal é fazer as pazes com esse sofrimento gerado, agradecê-los pela existência pura, se nada mais.

Mas, como tudo relativo ao culto ancestral, isso vai de cada um.

Uma vez estabelecida a conexão — o ciclo de reciprocidade — ela se torna cada vez mais profunda.

Quais ancestrais?

Quem são nossos ancestrais? Aqueles que nos precederam no mundo obscuro. Pais e mães, avôs e avós, bisavôs e bisavós… mas também tios e tias, primos, todos aqueles que influenciaram nossas vidas e existência diretamente. Podemos “olhar” para aqueles ancestrais antigos, dos quais nem sabemos o nome, que podem talvez ter existido na época pagã pré-cristã? Afinal, a existência humana é um grande contínuo! Sim, podemos, mas jamais em detrimento daqueles que, efetivamente, em um passado não-tão-distante, tem razões para se importar com nossa existência.

Veja, quando falamos em ancestrais, falamos em todos os ancestrais. Como brasileiros, temos em nós uma grande diversidade de culturas envolvidas em nossa herança. Não é apenas uma questão de raça: um europeu escandinavo não tem a mesma cultura e tradição de um europeu basco, ou eslavo, ou italiano. Dentro de todo continente, de toda “raça”, existe uma enorme variedade de culturas e crenças.

E como o culto ancestral é particular de cada família, por que não incluir aspectos que reflitam essa ancestralidade diversa em seus rituais? Por que não servir cachaça ao invés de vinho ou hidromel, por exemplo? Por que não pesquisar sobre outras formas de culto ancestral, que possam ser influentes ou relevantes, e incorporar aspectos desses cultos a seus rituais?

É sempre bom aproximar-se dos ancestrais nos termos deles.

E além…

O culto ancestral também não se limita aos rituais. Respeito é fundamental — respeito à memória, e aos vivos, assim como aos mortos. Respeitar e honrar aos pais (tanto no sentido “comum” quanto no sentido pagão da palavra). Manter a memória daqueles que nos precederam vivas, inclusive passando-a às gerações futuras. Compartilhar e manter vivo o conhecimento ancestral. Tudo isso faz parte.

Bem, tudo isso faz parte da reverência e culto aos mortos. Tudo isso, a fim de que descansem em paz, e que possam continuar, assim como nós mesmos continuaremos depois de nossa morte, protegendo nossas vidas.

Mas, às vezes, os mortos não descansam em paz. Isso será tema do próximo post.


Imagem por Lindy Baker, via Unsplash.

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