Pagãos, passado e presente: uma reflexão

Ontem, uma página e um evento de Facebook de amigos meus foram “visitados” por um grupo de pessoas, alguns com perfis claramente falsos, em uma vã tentativa de nos ofender em nossa condição de pagãos.

Nada de novo. Não importa o que fizermos, sempre haverá aquele para dizer que estamos errados, ou que não seguimos corretamente (crítica essa que, a depender do que é dito, pode estar mais ou menos certa), que estamos nos enganando, etc.. A melhor maneira de achar opositores a alguma coisa, é tentar fazer com que ela aconteça. Sempre que começamos a chamar atenção, a fazer volume, sempre que vozes são ouvidas, aparece alguém “do contra”. Natural.

Normalmente, eu ignoraria tal fato como mais uma ocasião de oposição em nossas vidas. As “críticas” feitas foram tão rasas, baseadas em insultos chulos e infantis que não repetirei aqui, que nem mereceriam atenção além de riso.

Porém, desta vez, alguns dos “argumentos” (se podemos sequer considerá-los como tal) levantados me chamaram um pouco a atenção. Não por serem novos e originais, mas por seu teor.

Acho que já deixei bem claro que o assunto deste post é uma reflexão pessoal, e, ao contrário de outros posts, meramente um pensamento meu. Tirem suas próprias conclusões. Continuemos.

Um dos “argumentos” usados pelo grupo de pessoas envolvidos em tentar difamar e irritar os envolvidos na página e no evento mencionados, foi que nós somos “neopagãos” e portanto, incapazes de entender ou aceitar as realidades dos povos antigos. Que nós, por conseguinte, não “duraríamos um dia” numa sociedade antiga. Basicamente, somos todos “posers e pseudo-vikings”. Também foram feitas várias acusações de cunho pessoal, relacionadas a gênero, sexualidade e, claro, moral e virtudes, mas isso não vem ao caso agora.

Este argumento de que somos incapazes de entender ou aceitar as realidades e moral dos povos antigos em sua totalidade é, de fato, verdadeira. Seria absurdo achar que um pagão urbano do séc. XXI tem real e profundo conhecimento do que é ser um pagão do meio rural do segundo ou terceiro século. A questão torna-se apenas que: não é, na vasta maioria, nossa intenção, nem nunca foi.

Existem realmente muitos pagãos que tem uma visão idealizada do passado, mas eu me arriscaria dizer que a maioria de nós tem plena consciência que o passado é profunda, total e absolutamente diferente de nosso presente. Nós sabemos que o passado era violento de uma maneira que nossas cabeças modernas não concorda, mesmo que a entenda. Nós sabemos que hoje em dia não é possível viver como se vivia. Nós sabemos que, em uma sociedade minoritária, onde a mentalidade padrão é aquela judaico-cristã, é absolutamente impraticável por uma realidade antiga em voga novamente. E mais, seria completamente anacrônico e absurdo.

Não somente porque nossas morais e nossa mentalidade mudaram, mas também nossa tecnologia, nosso conhecimento do mundo e do nosso universo, até mesmo nossa localização geográfica. Enquanto brasileira vivendo no Brasil do século XXI, seria absurdo achar que qualquer reconstrução que eu faça será idêntica àquelas praticadas por povos no norte da Escandinávia há mais de mil anos.

Mas isso não nos impede de estudar, aprender, compreender e adaptar. A intenção não é criar uma máquina do tempo. É entender o passado, resgatar aquilo que pode ser resgatado, e trazê-lo de volta ao presente. É perfeitamente possível entender que os povos daquela época pensavam, como agiam, porque agiam, reconstruir essa mentalidade e trazê-la à tona, à luz da modernidade.

Ora, nem o ato de adaptar-se é tão anacrônico assim. Vilhelm Grønbech, em sua Vor Folkeætt i Oldtiden (traduzindo para o inglês como The Culture of the Teutons, “A cultura dos teutões”), menciona que ao fim da era pagã já havia sinais de mudança, por exemplo, quanto ao direito de vingança. Percebeu-se ainda à época que o conceito de vingança desenfreada por qualquer motivo, terminando em morte, era em detrimento à sociedade antiga, portanto, regras foram estabelecidas para controlar e estabelecer. Inclusive, a thing (assembleia) germânica onde se resolviam essas questões formou a base do direito moderno aplicado em países germânicos — a common law de países de língua inglesa, que inclusive influencia o direito brasileiro — tem sua origem na thing germânica.

É bastante comum generalizar e estereotipar os povos germânicos de uma maneira geral como violentos agressores focados em guerra e conquista. Essa visão vem muito da presença e influência dos povos vikings sobre o imaginário popular.

Viking, que na verdade é uma profissão e um verbo similar a pirata ou salteador, mas cuja presença fez um impacto histórico suficiente para definir-se toda um período de tempo na história germânica, não define os povos germânicos, que se estenderam do norte da Europa até o norte da África em suas migrações sucessivas.

Não define sequer os povos escandinavos — que já existiam muito antes dos vikings existirem, assim como continuaram a existir depois deles. É irônico que toda uma história tenha sido resumida a, basicamente, um período de tempo relativamente pequeno, determinado por um grupo de pessoas menor ainda.

Havia vikings? Havia. Havia também comerciantes, fazendeiros, tribos profundamente unidas, tão unidas que o processo de cristianização foi complicado enormemente por sua profunda coesão social, o que causou um efeito inverso: uma germanização do cristianismo.

Havia um povo em que se podia ser guerreiro e skald ao mesmo tempo. Um povo guerreiro, sim, mas também preenchido de poetas (inclusive, não é a Edda em prosa, uma das fontes mais populares de conhecimento sobre a mitologia nórdica, uma tentativa de preservar o estilo e a métrica dos poemas islandeses históricos?), políticos, homens de estado, comerciantes, fazendeiros, praticantes de magia, fiandeiros, navegantes.

Um povo onde figuras femininas como völvur eram recebidas com honrarias e viajavam com séquitos, pagas em troco de seu serviço de divinação. Onde uma das principais celebrações era em honra às mães ancestrais, onde também era reunida a thing de vários povos.

A cultura germânica é rica, e ela vai muito, muito além dos vikings e dos berserkers, da violência e do tradicionalismo típico da época. É absurdo achar que tudo que tiramos desta cultura é apenas a violência e os costumes sociais da época em que ela existiu.

Também havia escravidão, havia guerra, havia inequalidade entre gêneros. Havia diversas coisas que nós abandonamos no decorrer do milênio que nos separa. É claro, ainda existem guerras, inequalidades e escravidão no mundo. E sim, eu conheço heathens que serviram no Iraque, no Afeganistão, que com certeza tem mais noção do que é guerra, o que é morte, o que é violência, que qualquer de nossos difamadores.

E esses próprios povos, por sua natureza, modificaram-se, sobreviveram e evoluíram, e existem em suas encarnações modernas na Escandinávia, na Grã-Bretanha, nas Américas, na Oceania, por todo o mundo. Estes próprios povos, à época, modificaram suas leis, seus costumes funerários, regionalizaram-se.

Eu diria que é profundamente heathen se adaptar ao mundo ao seu redor e às suas circunstâncias.

Nós aceitamos o mundo, em sua totalidade — em sua realidade, e não de uma forma idealizada. Para nós não há um paraíso superior, nos esperando fora desse plano.

Isso não quer dizer um completo abandono de tradicionalidade, de rituais, de festejos, de pensamentos, de certas morais e costumes, dentro da realidade. Isso não quer dizer que não podemos honrar os deuses antigos, seguindo o modelo antigo, de forma moderna. Isso não quer dizer que não possamos adotar rituais antigos, que possuem sua própria beleza e cadência, mesmo que modernizados. Isso não quer dizer que conceitos como honra, sorte e destino não sejam aplicáveis.

O paganismo germânico pré-cristão durou séculos, modificando-se, adaptando-se, regionalizando-se; assim será a nova encarnação dele. A corrente foi partida, mas isso não impede que a reparemos com materiais modernos, produzidos com métodos modernos, mantendo a essência do antigo, e, de certa forma, reforçando-os.

É falacioso achar que nós, que nos identificamos sob as mais diversas correntes e nomes e “tendências”, estamos atrás de uma máquina do tempo. É, sim, absurdo pensar que nós não iremos sofrer influência da cultura dominante, assim como os próprios pagãos a sofreram em seu tempo. É absurdo pensar que nós não sabemos disso.

Nós não vivemos de tradições absolutas, gravadas em pedra e em escritos sagrados. Nossas sagas e Eddas não são códigos de conduta imutáveis, e nosso destino não é absoluto.

Nosso paganismo é vivo, mutável, e real. E, se há algum problema com isso, bem… onwendeð wyrda gesceaft weoruld under heofonum.

A forma da wyrd transforma o mundo sob os céus.


Imagem dos últimos heathens da Europa — lituânios. Por Šarūnas Burdulis, via Flickr

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3 comentários sobre “Pagãos, passado e presente: uma reflexão

  1. Gostei muito de sua argumentação. E concordo. Vivenciar, estudar e compreender a cultura pagã pré-cristã com métodos e instrumentos modernos.

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