A morte e depois dela, III: Draugar

Os mortos estão entre nós. Eles vivem em seus túmulos, em nossas memórias, em nosso material genético. Existem mais pessoas mortas que vivas; sempre existirá. Nossas civilizações são construídas sobre os corpos e as vidas de milhões — bilhões — de gerações passadas, até a tão-falada sopa primordial.

Nós, pessoas modernas, temos uma tendência a encarar a morte como tabu, como algo negativo, a ser evitado, que não deve ser mencionado. Raros são aqueles que, entre nós, coexistem ou são confrontados com a morte cotidianamente. Esqueletos e caveiras são tratados como símbolos maus, negativos, ironicamente, considerando que todos nós temos ossos e caveiras. Nos afastando do campo e da natureza, e vivendo com uma qualidade de vida em muito superior àquela da era medieval, também nos afastamos da morte.

Mas as superstições persistem. Nosso folclore, assim como o folclore antigo, está repleto de zumbis, vampiros e outros seres associados à morte. Às vezes, de maneira até meio bizarra, imaginamos romances com eles, fantasiamos sua existência e removemos o aspecto aterrorizante de suas lendas.

 

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Esqueleto de 800 anos, encontrado na Bulgária, com o peito atravessado por uma vara de ferro. Essa prática, supostamente, evita que o morto se torne um vampiro. Via Wikicommons.

 

Mesmo assim, volta e meia aparece uma nova lenda urbana, um novo filme, versando sobre os espíritos inquietos, aqueles que desejam voltar à vida, aqueles que não descansam em paz sem seus túmulos.

Como já falamos, o culto aos mortos (e aos ancestrais) aparece nas mais diversas culturas humanas, e resiste até mesmo os fortes laços das culturas abraâmicas. E esses seres que resistem à ordem natural, à morte, persistem em mito e em folclore, na cultura germânica e nas outras diversas culturas.

Entre os germânicos, o inverno era uma estação profundamente associada à morte, talvez por motivos óbvios, já que os invernos do norte da Europa são rigorosos e de grande risco para os vivos. Assim, acreditava-se que os mortos tornavam-se mais ativos durante o inverno (como já mencionamos, a maior parte dos cultos ancestrais acontecia nessa época), em vários fenômenos, de diversas maneiras.

Draugar

Um desses seres, comum no folclore escandinavo, é o draugr — um ser que existe no limiar entre vampiros continentais e zumbis, também conhecido como aptrgangr (“aquele que anda após a morte”).

Ele resiste à morte: volta à vida em seu corpo reanimado, mas de forma diferente. Ele tem força extraordinária e carrega consigo o cheiro da decomposição; tem poderes extraordinários de força e resistência. O draugr sobrevive para resolver questões não resolvidas, e, ao contrário do zumbi, ele tem inteligência (embora não muita; até mesmo o temível Glámr, mencionado na Gréttirs saga, não tem lá essa inteligência toda).

O draugr pode ter poderes. Ele pode ter poderes mágicos de ver o futuro, mudar de forma, aumentar de tamanho, controlar o clima, assim como bruxas e feiticeiros vivos. Ele causa a insanidade em animais e humanos que o veem. Ele pode tomar a forma do gato que senta sobre o peito de sua vítima, e torna-se cada vez mais pesado, até sufocá-la; pode ser o touro flagelado, o cavalo pálido sem orelhas e sem cauda e com a espinha partida, que perseguem e matam o gado.

Podia, inclusive, ser percebido antes mesmo de seu funeral: o corpo é pesado, e parece inquieto, e difícil de transportar, crescendo enormemente e não se decompõe.

O draugr tem a natureza do vivo que foi — e, na maioria das sagas, essa natureza é ruim, ou violenta. Ou seja, mesmo morto, este morto é como o vivo — ele não se altera nem se modifica, apenas se intensifica. Mas não há uma personalização, ou personalidade; o caminho do draugr é aquele que ele segue, ou deve seguir, e não necessariamente uma volta à vida real. Ele não é vivo — mas também não é completamente morto.

Ele inspira terror por sua natureza; ele guarda sua tumba, vaga pelo mundo, e pode vir a vingar-se daqueles que o fizeram mal no passado.

São quase sempre escuros (“azul como a morte”) ou extremamente pálidos (“pálido como um cadáver”), ou seja, literalmente corpos reanimados: a tradição escandinava, inusitadamente, não tem o conceito de fantasma como alma desencarnada, intangível.

Há quem diga que draugar constroem seus próprios túmulos, onde se encerram com seus tesouros antes mesmo de morrerem — escolhendo assim o momento de sua morte, ao invés de simplesmente morrerem de idade ou doença, pacificamente.

Assim, o draugr vive em seu burial mound (mamoa), no monte construído sobre a câmara funerária (Escandinávia); mas também pode vagar livremente (Islândia). Também são associados com o hvammr, uma espécie de pequeno vale certado por montanhas por todos os lados, menos um. Estes lugares permaneceriam quase que perpetuamente escuro, devido à sombra das altas montanhas que o cercam, recebendo pouca luz solar; e durante o inverno completamente sombrio. Um lugar apropriado para os mortos inquietos viverem.

Pois o draugr se move pela escuridão: à noite, ou trazendo consigo uma névoa que o oculta. A saga de Gréttir, menciona que o draugr se move nos padrões de luar e escuridão. Eo draugr, quando mata alguém, pode transformá-lo em draugr também — sua condição pode muito bem ser contagiosa, como acontece com a maioria dos mortos-vivos.

O draugr tem fome, uma fome insaciável: ele devora tudo que encontra, e não se sacia. Cães, cavalos, até mesmo humanos, não são suficientes para apaziguar sua fome. Eles têm inveja dos vivos: eles buscam seus locais de conforto, suas casas e o hall onde costumavam se reunir, e lá fazem seus festejos e banquetes espectrais.

Relacionado ao draugr é o haugbui — aqueles que vivem no howe (câmara funerária). Estes, assim como draugr, tem poderes mágicos, e uma enorme força física; mas ao contrário do draugr, agem apenas na proteção de sua howe e os tesouros que ela contém, ficando presos a ela e à área em que ela existe.

Nem sempre os mortos causam o mal: a mulher Thorgunna, cristã, levanta de sua morte para cozinhar para seu séquito funerário, quando a eles foi negado comida e abrigo (Eyrbyggja saga). Por ela ter uma natureza boa, prudente e tranquila, assim é sua natureza enquanto morta. Ela faz sua obrigação, até que os donos da casa concedem e acomodar seu séquito.

Um grupo de mortos, todos falecidos em um navio, à noite, vão festejar, beber e brigar como se estivessem vivos, em um determinado hall, molhando tudo e fazendo algazarra — até que, à moda antiga, os vivos fazem um julgamento, cada morto se defende e se retira após passada sua sentença.

A lenda do draugr é bastante prevalente, principalmente nas sagas islandesas — e permanece, de certa forma, no folclore escandinavo. Na Dinamarca e Noruega, o draugr foi posteriormente associado a corpos que surgem dos mares, trazendo risco àqueles que viajam sobre as águas, arrasando navios e levando pessoas para as profundezas — são os corpos inquietos daqueles que morreram ao mar.

Tal estória é contada pelo escritor norueguês Jonas Lie, em seu Trold (1891-1892)que conta diversas estórias fantásticas de pescadores do Mar do Norte; uma delas, Elias og Draugen, pode ser lida no site Online Literature (em inglês).

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Draugar em forma sub-humana, em um navio, do folclore norueguês. Ilustração por Laurence Housman, via Wikicommons.

Prevenindo-se contra os mortos

É bastante comum, no folclore mundial, haver certas tradições de forma a prevenir o ressurgimento dos mortos: enterrá-los de rosto para baixo, cercar o local com sal ou água corrente, barreiras que os mortos não conseguem atravessar, colocar moedas de ouro na boca ou nos olhos do morto, de forma que pague sua passagem ao submundo, entre outras tradições.

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Pedra rúnica Nørre Nærå — supostamente contendo inscrições rúnicas para manter o morto em sua tumba, localizada na Dinamarca. Via Wikicommons

Na Escandinávia não era diferente. Algumas tradições do gênero: colocar uma tesoura aberta no peito da pessoa; furar seus pés com agulhas; amarrar seus dedos do pé, de forma que as pernas não possam abrir (e, portanto, não consiga levantar). A saga de Eyrbiggja menciona não passar diante dos olhos do morto antes que este fosse fechado. Além, removia-se o corpo por um espaço diferenciado, posteriormente fechado, pois havia a crença que o corpo só poderia voltar pelo mesmo caminho percorrido quando seu corpo foi levado.

Matar um draugr (pois os mortos podem morrer novamente) não é tarefa fácil. Eles podem, sim, ser feridos com ferro frio, mas o ferro sozinho não é suficiente. Estacas de madeira, decapitação com a espada do próprio draugr (aquela sepultada com ele), depois de levá-lo ao chão e subjugá-lo, são alguns métodos de desfazer-se do monstro. Além, os restos mortais deveriam ser queimados, e as cinzas mantidas até esfriarem e depois, enterradas ou jogadas ao mar.

Mas, cuidado: o ato de matar um draugr, de matar um monstro, muitas vezes também o transforma em um — no pária, no isolado, naquele que não se pode confiar. Olhar para o abismo, pode fazer o abismo olhar de volta. Grettir, que mata o draugr Glámr, nunca mais é tratado como igual na sociedade; ele passa a ser chamado de troll, assim como Glámr antes dele. Interessantemente, Grettir é chamado de lobo, um termo usado para fora da lei; lobos são frequentemente inimigos dos mortos-vivos (veja como os lobisomens quase sempre são inimigos dos vampiros, uma ideia que remonta à Idade Média).

É bastante claro que neste aspecto, as lendas centro-europeias de vampiros e a lenda do draugr se misturam. O folclorista Andrew Lang foi o primeiro a estabelecer tal conexão, em 1897 — mesmo ano da publicação do famoso Drácula de Bram Stoker. Talvez porque a palavra geralmente aplicada aos draugar — fantasma — pouco ou nada tenham a ver com estes seres.

Mas, embora haja similaridades, o draugr não é vampiro. Também não é um fantasma, espírito ou espectro — ele é um draugr, um dos muitos, e prevalentes, espíritos, demônios, o que quer que o nomeemos, seres que habitam o imaginário popular, das coisas que se movem durante a noite, das questões mal resolvidas e dos mortos sempre presente entre nós. Aquele Outro poderoso e anti-social, que destrói, desafia a natureza e a ordem natural das coisas, com motivos não identificados e escusos.

Respeitar aos mortos, e reconhecer seu poder, é fundamental. É preciso cuidade para não tornar-se um deles, não tornar-se aquele que, ao combater os monstros, torna-se um deles.

E, bem, se você ouvir alguém bater em sua janela uma única vez, tenha cuidado e não abra. Espere a pessoa bater novamente. Pode ser um draugr tentando entrar em sua casa…


Imagem por Ales Krivec, via Unsplash

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