Paganismo, racismo e cultura

Ontem, o grupo conhecido como HUAR (Heathens United Against Racism) promoveu um evento internacional, Light the Beacons, através do Facebook. Este evento consistiu de pessoas do mundo todo acendendo fogos (velas, fogueiras e afins) em nome de um heathenismo inclusivo e hospitaleiro a pessoas de todos os gêneros, raças e orientações sexuais. Eu, pessoalmente, não participei deste evento, por motivos pessoais. Mas muitos dos que conheço participaram, compartilhando suas fotos e locais de origem em apoio à campanha, acenderam suas velas e suas fogueiras em honra a um paganismo germânico (heathenismo) dissociado de ideologias de cunho racistas e exclusivistas. O simbolismo do fogo, e de acender os fogos de alerta, vem desde a época antiga, onde fogos eram acesos para alertar tribos próximas de uma ameaça presente.

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Light the Beacons: fogo aceso por Bruna Klimeck, em Osasco, São Paulo.
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Light the Beacons: fogueira acesa por Filipe Alves, em Brasília, Distrito Federal.

Mas minha intenção com este post não é entrar no mérito ou demérito de tal ação. É, mais uma vez, entender a relação do racismo com o paganismo germânico.

O reavivamento do paganismo germânico, o que chamamos hoje de heathenismo (heathenism ou heathenry em inglês), “morreu” faz mais de mil anos, com a ascenção do cristianismo entre os povos germânicos e a conversão em massa destes povos. O processo de cristianização não foi simples, nem direto, e também não foi exclusivamente à força, como muitos pagãos modernos gostam de pintar. No caso específico da Islândia, foi inclusive um processo deliberado, e adotado como a melhor coisa a se fazer no momento.

O processo de cristianização, ironicamente, levou à uma germanização do cristianismo, onde certas práticas, conceitos e ideologias foram mesclados de forma a tornar o cristianismo romano (uma religião bastante oposta, ideologicamente, à religião pagã antiga) mais palatável ao público germânico. Estas mudanças, originalmente pensadas como temporárias, acabaram tornando-se parte fixa da praxis cristã, e têm influência no catolicismo e cristianismo protestante até hoje.

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Ilustração de Cristo como um guerreiro, no Stuttgarter Psalter, um livro de salmos, ilustrado em iluminuras, do séc. IX. Via Wikicommons.

Independentemente disso, por séculos, desde o princípio da Idade Média até os dias modernos, se não absolutamente morta (há indícios que remanescentes isolados tenham permanecido ativos até relativamente recente, no séc. XVII, e muitas tradições menores, como a relação com os elfos e vettir locais, de certa forma permaneceram vivas em áreas rurais, na forma de folclore e cultura local), a religião antiga cessou de existir como cultura expressiva e tradicional de comunidades e tribos germânicas.

Este legado foi lembrado, de certa forma, e voltou à tona apenas no final do séc. XIX e início do séc. XX, com o movimento völkisch (völkisch Bewegung) alemão. Este termo e movimento, fortemente embasado no romantismo, visava um reavivamento das sociedade alemã embasada na cultura e no folclore históricos desta região, de forma “populista”, orgânica, não sofisticada ou moderna, ou seja, com ênfase na noção de povo, tribo, etnia. Aqui, a intenção é formar uma identidade étnica alemã.

Ele vem diretamente do romantismo nacionalista, e da revolução conservadora nacionalista alemãs. Um movimento tanto populista e nacionalista, quanto conservador e anti-modernista, uma forma de volta a um passado utópico — de certa forma, não muito diferente da visão dos movimentos indianista do romantismo brasileiro, ou do arcadismo, inspirados no mito do bom selvagem, este por si inspirado nos escritos de Jean-Jacques Rousseau. No caso brasileiro, não havia o aspecto político — ao contrário do movimento völkisch alemão.

No contexto alemão, houve um reavivamento das tradições pagãs pré-cristãs germânicas, mas com um foco bastante específico no esoterismo e misticismo.Embora em princípio não relacionado com aspectos étnicos ou raciais, os movimentos políticos ao redor deste misticismo alemão naturalmente trouxeram à tona a preocupação com a raça ariana, com a pureza do povo, com a pureza étnica, com, por exemplo, a formação da Ordem Teutônica, a Germanenorden, em 1912, em Berlin.

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Relógico Rúnico de Werner von Bülow, associando as runas armenens de von List, os meses do ano e os deuses. Via Wikicommons.

Nós sabemos onde estes movimentos pararam: eles foram incorporados na inspiração do nazismo e do fascismo alemães, alimentando o já existente sentimento anti-semita e o crescimento do arianismo neste país e na Áustria.

O movimento völkisch alemão pouco tem a ver com o reconstrucionismo moderno ou com a religião antiga. Enquanto o misticismo alemão focava em aspectos quase teosóficos e ocultistas, o reconstrucionismo moderno do heathenismo foca nos aspectos históricos-culturais destes povos — embora de certa forma o misticismo faça parte (é uma religião, afinal), a reconstrução também se entremeia na forma de pensar, ideais, e outros aspectos verdadeiramente humanos e não-higienizados das culturas antigas. O movimento moderno não rejeita a realidade sociocultural moderna em busca de uma realidade passada utópica, mas busca conciliar e inspirar-se no antigo para construir o presente e o futuro heathen.

Mas, a influência racialista permanece, em grupos e movimentos hoje conhecidos como folkish — aqueles que veem a religião antiga como herança étnico-cultural dos povos germânicos e que, desta forma, deveria ser restrita apenas a esses povos e seus descendentes. Estes movimentos encontram corpo principalmente no Odinismo (aqui  um real movimento religioso, e não apenas ao nome associado aos adoradores de Odin) e no Wotanismo, ambos de cunho fortemente racialista e segregacionista. Ainda assim, existem outros com forte conotação racialista, embora não necessariamente explícita ou levada a extremos de supremacia branca.

Os movimentos reconstrucionistas modernos, inclusive a Ásatrú, tem sua origem mais especificamente nas décadas de 60 e 70, com o movimento Odinista da Else Christiansen, uma dinamarquesa, que fundou a Odinist Fellowship nos Estados Unidos nos anos 60, com forte cunho racialista e supremacista branco, mais que religioso. Mais ou menos simultaneamente, na Islândia da década de 70, surgia a Ásatrúarfélagid,  que criou o termo Ásatrú, e sem esses aspectos, um movimento de resgate da cultura islandesa pré-cristã. Movimentos similares surgiram na Suécia, Dinamarca, Noruega, Grã-Bretanha, Canadá e Austrália, de forma independente umas das outras. A maior parte dos movimentos Escandinavos não envolvem aspectos racialistas. Notadamente, o movimento theodista, fundado por Garman Lord, também não inclui aspectos racialistas em suas origens.

Assim, percebe-se que as raízes do movimento tem, sim, um “pé” no racialismo alemão, e que ainda há organizações que levam esses ideais adiante. Se são bons heathens ou não, bem, isso é questionável, e não cabe a mim dizer.

Certamente, não são representativos de toda uma religião, cultura e história antigas, nem de seu reavivamento moderno. Racismo e racialismo, afinal, não são exclusividade do heathenismo, ou, afinal, de qualquer religião, com todo tipo de pensamento e argumento a respeito.

Não há indício que os povos antigos tenham sido racialistas, até porque o conceito de raças foi apenas fundamentado no séc. XVI, e, no senso moderno, apenas no séc. XIV. O conceito de etnias ou raças, enquanto classificações de pessoas através de culturas e embasado em características fenotípicas, é moderno, e muito posterior aos povos germânicos pré-cristãos.

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As cinco raças de Blumenbach, 1875. Via Wikicommons.

A ideia que os povos antigos eram racialistas é bastante anacrônica.

Conceitos antigos de raça, de uma forma geral, centravam-se na associação de características físicas com a condição de “outrem”, ou seja, com a condição de estrangeiro, ou de um povo adversário. Assim como os romanos consideravam os germânicos, e outros não romanos, bárbaros, os próprios povos germânicos os consideravam walhaz, estrangeiros (normalmente aplicado aos romanos, gregos e celtas).

A identificação social se dava menos por características físicas, e mais pelas afiliações culturais e tribais entre si. Essa visão é prevalente em todo o mundo antigo, desde a China até a Grécia antiga. Gregos da era clássica classificavam todos os não-gregos como bárbaros; chineses do séc. III, na dinastia Han, mencionam bárbaros “brancos, de olhos verdes, como os macacos dos quais descendem”. Sabe-se que os egípcios classificavam humanos em quatro raças, hoje consideradas líbios, asiáticas, núbios e os próprios egípcios, mas se sabe que estas raças coexistiam no Egito.

A ideia que as características físicas de um povo são adequadas à sua região de origem existe desde a Grécia antiga, sendo proposta, pela primeira vez, por Hipócrates de Cos. Aristóteles complementa essa ideia associando as características de tom de pele ao clima.

A condição de outro — de bárbaro — porém, não era absoluta nas culturas antigas. Um bárbaro poderia deixar de ser bárbaro, tanto na Grécia quanto em Roma, ao adotar a cultura destes povos. Percebe-se então que a suposta inferioridade percebida no outro, o barbarismo, nada tinha a ver com sua biologia ou suas características físicas, e sim com o preconceito cultural associado à condição de estrangeiro.

Embora tivessem um termo para estrangeiro, os germânicos não aparentavam ter um termo similar para se identificar como compartilhadores de uma cultura — simplesmente porque cada tribo se via individualmente, embora fossem cientes de suas similaridades.

O próprio termo germânico provavelmente vem do gaulês ger (próximo, vizinho) e mani (pessoas), sendo cunhado pelos romanos (germani) para referirem-se aos povos da margem oeste do Reno à Gália. De forma similar, Tácito e o próprio César usam o termo suevo (suebi) para referir-se a povos germânicos diversos, mas de idiomas similares.

No período migratório, também conhecido como as invasões bárbaras, surgiram muitos povos “novos” — que começaram a distinguir-se em povos específicos, e não apenas tribos díspares, formando reinos em desfavor da estrutura tribal anterior. Foi neste período, também, que começou a cristianização dos germânicos.

Este período viu a expansão dos povos germânicos em geral da Escandinávia até o Norte da África, através do território do Império Romano ocidental, assimilando e sendo assimilados pelas culturas locais. Neste período, por exemplo, francos e visigodos adotaram a cultura e principalmente a língua latina, e os escandinavos assimilaram, de certa forma, aspectos da cultura sami nativa do norte da Europa e dos finlandeses (um povo distinto dos germânicos).

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Invasões bárbaras ao Império Romano ocidental. Via Wikicommons.

Posteriormente, na famosa Era Viking, essa expansão estendeu-se até Bizâncio, culminando na colonização da Islândia, da Groelândia, e, muito rapidamente, na chegada à América do Norte, na região de Vinland, atual Newfoundland, Canadá.

Curiosamente, há indícios de que pelo menos uma mulher nativo-americana tenha acompanhado os vikings de Vinland de volta à Islândia — há traços de DNA típico de nativo-americanos em algumas famílias islandesas. Atualmente, identificaram-se pelo menos 80 islandeses nativos com genes comuns aos nativo-americanos em seu DNA mitocondrial, que é passado de mãe para filhos, e há sinais que esta herança esteja presente há alguns séculos — provavelmente anterior às expansões de Colombo, já que a Islândia encontrava-se bastante isolada à época.

O famoso navio de Oseberg, encontrado enterrado na Noruega contendo o corpo de duas mulheres de, claramente, alto status social (possivelmente a Rainha Asa, dos clã dos Ynglings), tinha entre seus bens funerários um balde com uma imagem similar a de um Buda, uma figura humana com as pernas cruzadas em posição de lótus. Não se pode afirmar ser realmente um Buda, entretanto.

Mas se não podemos dizer o mesmo do Buda de Helgo, na Suécia, uma pequena ilha que já foi um grande posto comercial. Lá, escavações arqueológicas encontraram moedas árabes, uma concha cóptica egípcia, e uma pequena imagem de Buda de origem provável paquistanesa, da região de Kashmir, todas datando da Era Viking.

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Objetos encontrados em Helgö, Suécia: um báculo irlandês, um Buda paquistanês, e uma concha cóptica egípcia. Via Wikicommons.

De volta ao Oseberg, o arqueólogo Per Holck levantou a hipótese da rainha sepultada no navio ter origem iraniana —  o DNA dos restos mortais dela conteriam traços de DNA comuns ao povo persa. Entretanto, não há evidências firmes sobre isso, já que é bastante complexo analisar DNA de restos mortais há muito tempo em decomposição.

Por outro lado, é certo que os povos germânicos não tinham problema em escravizar celtas (que foram, muitas vezes, vítimas de sua expansão) e misturar-se com eles (como é o caso da população islandesa nativa, que é primariamente mestiça de celta e norueguês). Também, notadamente, comerciavam com os turcos, persas, e pessoas do norte da África. Além, certos relatos que temos hoje, que nos dão uma janela para estes povos antigos, foram escritos por árabes em missões diplomáticas e comerciais.

O mais famoso destes relatos, aquele de Ibn Fadlan, traz um homem árabe que viveu entre o povo Rus durante uma missão diplomática entre os búlgaros da região do Volga. Neste relato Ibn Fadlan registra vários de seus costumes e, inclusive, escrevendo o melhor e mais detalhado relato de um funeral viking que temos. Ibn Rustah, um persa do séc. X, menciona explicitamente que os Rus tinham hábitos hospitaleiros e amigáveis para com estrangeiros e estranhos.

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Rus comercializando escravos com os Khazars. Por Sergei Ivanov, 1909. Via Wikicommons.

A saga islandesa Landnámabók traz a figura de Geirmund Heljarskinn, que é descrito como tendo pele escura, possuidor de grande influência e riquezas. Bergsveinn Birgisson traz a teoria que a mãe de Heljarskinn seria da Mongólia, tendo conhecido seu pai enquanto este caçava morsas na Sibéria — e, de fato, há indícios de certas mutações no DNA do povo islandês que poderiam indicar descendência desta região.

Assim, consideramos que não há nenhuma evidência clara que indique exclusivismo ou racialismo entre os povos germânicos, ou sequer o reconhecimento de raças tais quais como pensamos hoje. Nós sabemos que estes povos encontraram forças hostis sub-saarianas, que enfrentaram árabes muçulmanos em Sevilha, que faziam comércio na região da atual Rússia com os persas e com os turcos. Nós sabemos que o povo Rus (largamente considerado de origem nórdica) recebeu embaixadores e representantes árabes, e que a eles foi permitido ver certos rituais e um funeral.

O argumento de racialismo e exclusivismo histórico, basicamente, não se sustenta, já que aspectos de pureza racial não se encontram na cultura antiga, nem uma preocupação com a inferiorização ou segregação de outros povos somente por características fenotípicas.

E, claro, o melhor argumento seria aquele que, mesmo se houvesse (e não há), nós não vivemos mais na Idade Média, e a cultura germânica pré-cristão não mais existe como existiu antes da cristianização. É um tanto quanto ingênuo achar que se tem direito exclusivo a uma cultura que não é a sua, e que se encontra separada de você por quase um milênio, meramente por compartilhar de algumas características incidentais em comum com o povo antigo.

Nós sabemos que o conceito de etnia não é equivalente ao conceito de raça, posto que etnia envolve cultura, idioma, e outros aspectos socioculturais, incluindo, mas não limitado a, religião e, sim, a raça ou expressão física de um povo.

Cultura, em todos os seus aspectos, é transmitida pela linguagem em comum: o que inclui não somente a linguagem verbal, mas aquela não verbal também, de símbolos, rituais, alimentação, tradição, costumes e hábitos diários. É possível adotar-se uma cultura, aculturar-se.

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Livro de Durrow, um dos primeiros exemplos de arte Hiberno-Saxão — que mistura aspectos da cultura germânico e nativa celta, do séc. XVII. Via Wikicommons.

Um norueguês não é um americano, que não é um irlandês, que não é um sueco. Embora esses povos possam compartilhar características físicas, é absurdo achar que são o mesmo, ou que compartilhem a mesma cultura. Mesmo aqueles que compartilham idiomas (portugueses e brasileiros, por exemplo, ou ingleses e americanos) não podem ser considerados como uma mesma cultura, posto que não coexistem na mesma região geográfica, não tem seus mesmos rituais, costumes, idiosincrasias, alimentação, e tudo aquilo que faz de um povo, um povo.

A cultura — a herança — heathen se perdeu na cristianização. Essa linguagem cultural desapareceu, e é trabalho dos reconstrucionistas trazê-la de volta através da pesquisa, estudo, e, sim, da prática do heathenismo moderno. Trazendo-a de volta quase um milênio depois (se não mais de um milênio), nós fatalmente criamos nossa própria cultura — e, de acordo com a própria crença antiga, ela será fatalmente descentralizada e sem uma organização central, e diferente (embora inspirada) da cultura antiga. Nós voltaremos, como antes, a compartilhar uma linguagem (que seja não verbal, nos rituais, nos sacrifícios, na visão de mundo), comum em sua própria diversidade e, talvez, recriar a etnia heathen — que será diferente da original.

Existirão aqueles que são exclusivistas, infelizmente. Mas felizmente, existirão tantos outros tantos que não o são. Existirão heathens de região tropical e heathens das regiões setentrionais do mundo. Simplesmente, haverá heathens novamente.

E, no fundo, é isso que importa.

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