O heathen e a anomia

Entre os pagãos que eu conheço (e sim, estou ciente da generalização e da limitação da população observadas), torna-se bastante clara a tendência de um desejo por uma vida mais simples. Essa simplicidade geralmente é ligada à vontade por um retorno à natureza, à vida do campo, à relação com o mundo natural e com um estado menos complexo e urbanizado de existência.

Isso é normal, até esperado. Muitos daqueles que buscam se tornar pagãos, o fazem pra fugir, de forma ou outra, da mentalidade social vigente. Nós vivemos em um mundo que tem apreço pela mecanização; vivemos, muitas vezes, em grandes cidades, separados da “vida selvagem” e dos espaços abertos e naturais que tanto admiramos. Nossa cultura é, em grande parte, certamente urbana.

Nos idos da conversão dos povos germânicos, os cristãos encontraram um entrave. Os primeiros povos convertidos viviam, essencialmente, sob a égide do Império Romano, que por sua natureza já constituía de grandes centros urbanos, pelos padrões da época. Lá, entre os romanos, encontraram um povo em estado de anomia: um estado de falta de objetivos, de regras, de profundas mudanças sociais e de perda de identidade na grande massa humana da urbs romana.

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Maquete representando a cidade de Roma à época de Constantino. Via Wikicommons.

Esse problema não existia entre os germânicos contemporâneos ao Império Romano. Por viverem em sociedades primariamente rurais, os povos germânicos entendiam a profunda necessidade de união sócio-cultural: eles tinham um perfeito senso de identidade e propósito dentro de suas tribos. A tribo funciona em harmonia, e, naturalmente, a visão de mundo religiosa e cultural era condizente com isso.

Os romanos, por sua vez, passavam por mudanças profundas em sua sociedade. Isso cria um vácuo no ideário social — e foi nesse momento que o cristianismo encontrou espaço pra crescer. A nova religião preencheu o vazio, trouxe novos ideais, novos propósitos, novos pensamentos. Uma nova identidade. Um novo senso de comunidade e comunhão, fundamentados na nova visão de mundo. Na nova crença.

Ironicamente, o mesmo ocorre hoje — no sentido contrário.

Vivemos, acredito eu, a onda descendente. O mundo segue, modernizando-se, especializando-se, e muitos, principalmente os jovens, que que não tem condições financeiras de navegar o topo da onda, são os excluídos sociais. Os gays, aqueles que praticam a poliamoria, transsexuais, pessoas com problemas psicológicos como depressão e ansiedade (em muitas vezes, causados pela pressão da vida urbana), pessoas que sofreram com a cultura vigente e resolveram separar-se delas, vivem à margem de uma sociedade e uma norma social que muitas vezes os rejeita.

Pessoas que vivem à margem da sociedade. Que vivem fora da curva de desenvolvimento urbano, cultural, financeiro e social. Ou, simplesmente, que veem uma cultura vigente que rejeitam pelos mais diversos motivos, e procuram algo diferente, em busca do senso de tribo, de identidade.

É muito normal que pessoas como nós (novamente, não todas, talvez sequer a maioria, mas muitas) procurem algo fora do padrão social judaico-cristão em que crescemos. Da mesma forma que os romanos do tempo antigo procuraram justamente no cristianismo algo mais que a cultura da época, algo que trouxesse uma certa paz e sentido às suas vidas.

Também não é o primeiro ciclo. A industrialização trouxe consigo uma forte urbanização. Não é coincidência que muito do romantismo europeu surgiu nessa época, no limiar entre o século XIX e o século XX, e nas primeiras décadas do mesmo.

Em 1913, Joseph Knowles, um ilustrador de meia idade, declarou que ia viver sessenta dias na vida selvagem. Sem roupas, sem armas, sem nada além do próprio corpo, ele se despediu do mundo moderno (que já, à época, sentia-se intimidadoramente civilizado, mecanizado, e fraco), e entrou nas matas do Maine para viver a vida selvagem que, à época, tanto se idealizava.

Todo o evento foi um grande sucesso. Knowles se apresentou diante das câmeras antes de anunciar seu plano. Ele enviava cartas escritas em madeira usando apenas carvão como “tinta”, onde contava suas aventuras. Desta forma, ele supostamente viveu até, sessenta dias depois, reaparecer em Québec, Canadá, envolto em uma pele de urso apenas, sujo e cansado, de volta à civilização. Mais forte, aparentemente mais saudável, mais magro, muito diferente da pessoa que saiu.

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Joe Knowles.

Joseph Knowles tinha um objetivo. Mostrar que o homem urbano poderia viver na natureza, que ele poderia — ainda — ter a força do homem primitivo. Com isso, ganhou uma enorme fama: apresentou-se em universidades, deu palestras, fez sucesso e dinheiro…

mesmo não tendo passado por nada do que diz ter passado. Dizem as más línguas que ele apenas se refugiou em uma cabine na floresta, onde viveu tranquilamente os dois meses estipulados, sem grandes riscos à sua vida ou saúde.

Joseph Knowles era um charlatão. Mas era produto da época. A época que glorificava a cultura nativa americana, onde pessoas em centros urbanos iam praticar carpintaria e outras formas de arte e cultura consideradas primitivas e tradicionais.

De forma similar, atualmente, vemos uma nova onda parecida com aquela dos anos 60 (ou uma sequência desta, talvez), “inaugurada” pelos hippies: um crescente interesse em meditação, nas técnicas de mindfulness, yoga, nas filosofias chinesas. Na própria China, experimenta-se uma renascença, de certa forma, da filosofia de Confúcio.

Vemos pessoas se reunindo, todos os anos, no Stonehenge inglês, para celebrar os solstícios, e por anos, sendo combatidos com forças policiais tentando mantê-los longe do local.

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Solstício de verão em Stonehenge, 2014. Por Paul Towsend, via Flickr.

Não vou reduzir o paganismo de forma geral a mera “rebeldia”. por assim dizer, ou apenas uma reação à anomia moderna. Entretanto, é curioso pensar na razão pela qual há esse resurgimento, tanto no Brasil quanto no exterior; pensar nos motivos que levam pessoas, do mundo todo (mas principalmente no Ocidente), a rejeitarem abertamente a visão de mundo vigente.

O começo do século XX viu o surgimento de vários movimentos chamados românticos, que buscavam um retorno às raízes, uma quebra com a cultura vista como corrompida, fraca e urbana. Esses mesmos movimentos deram origem ao paganismo germânico, heathenismo ou até mesmo à Ásatrú tal como a conhecemos. Muitos desses movimentos terminaram em sentimentos nacionalistas; mesmo que suas consequências tenham perdurado de outras maneiras. A ideia central, entretanto, é quase sempre a mesma: nosso mundo está ruim, portanto, precisamos de um retorno ao passado.

Os motivos pelo qual procuramos esse caminho são muitos. Há aqueles que desenvolvem um genuíno interesse pela história, por sua ancestralidade, pela mitologia. Há aqueles que conheceram pela cultura popular, como músicas e quadrinhos e resolveram buscar algo que, no fim, fez sentido para elas. Pessoas procuram mudar suas vidas por uma miríade de razões.

Mas eu me arriscaria dizer que muitos dos leitores deste blog se enquadram nessa situação de insatisfação com o mundo moderno, onde vivemos, em busca de algo mais. Algo novo. Algo diferente daquilo que já conhecemos e que, muitas vezes, não nos agrada, em vários sentidos.

Nesse momento, porém, nós precisamos tomar um cuidado extra. Um cuidado para não cair do outro lado — o lado do exagero.

É sempre importante ter em mente a presença do mito do bom selvagem. Quando examinamos o passado, olhamos pra trás, é importante não romantizarmos (como foi feito no começo do século XX, e até mesmo antes) o passado de acordo com a nossa visão de mundo moderna, mas sim vê-los dentro de um contexto sistêmico: social, cultural, tecnológico. O contexto dos povos ao seu redor, das crises, da saúde, localização geográfica, condições climáticas, etc.: tudo influencia como um povo vive e como ele se expressa, como ele afeta o mundo.

E nem sempre essas condições são tão idílicas quanto a mente moderna (acostumada ao relativo conforto do mundo moderno) imagina. Existe um certo romantismo na imagem da bela mulher escandinava em um longo e simples vestido branco, chamando o gado (como é apresentado em um vídeo que vem correndo o Facebook, sobre o qual eu falo aqui), na ideia da família reunida ao redor do fogo à noite, contando estórias e cantando canções.

Mas é também preciso lembrar a falta de escolha de tais mulheres à época, lembrar que nem sempre as noites eram confortáveis com o uivo dos lobos lá fora. Que o gado poderia amanhecer morto, ou longe, por peste ou por roubo, por predadores. Lembrar da escravidão, da fome, das doenças, dos conflitos.

É importante lembrar que, embora a visão de mundo mude e se adapte às condições locais, a natureza humana não muda tanto. Que havia crime, que havia estupro, escravidão, classes sociais, tudo que nós temos hoje, não é invenção moderna, inexistente no passado.

Lembrar que o passado idealizado não existe e nem nunca existiu. Que o homem antigo não vivia em completa harmonia com a natureza e que, muitas vezes, a própria natureza selvagem era vista como hostil. Que os valores que consideramos modernamente como associados ao paganismo (principalmente a ideia de “liberdade”, que vejo muito repetida por aí) talvez causassem estranheza aos antigos. Pelo menos, o que nós chamamos de liberdade, em relação aos povos antigos.

Não que não haja seu lado positivo. Afinal, nós não trilhamos o caminho à toa. Mas é importante avaliar, sempre, a realidade através da perspectiva dela mesma: saber separar o moderno do antigo, por exemplo (e não imputar ideologias modernas ao modo antigo), saber separar o que é bom para nós daquilo que abandonamos com razão, e ponderar a realidade antiga em relação à nova.

Não é tarefa fácil. Mudar de pensamento, a própria maneira de ver as coisas, não é simples. Não existem verdades simples e confortáveis, nem sempre, pelo menos. Às vezes é complicado admitir que certas coisas como a cultura de prestígio existiam e eram valorizadas à época, que nem toda oferenda era considerada digna, entre outros milhares de detalhes que pontuavam a vida antiga.

E isso também não quer dizer que tenhamos que abandonar a modernidade e tais conceitos em favor de uma utopia inexistente, ou da realidade brutal antiga. Entretanto, é no mínimo desonesto tentar “reescrever” o passado do ponto de vista da ideologia moderna, em busca de justificativas que não se sustentam e não existem. Se o passado é diferente, bem, pouco importa; olhemos para o futuro, e construamos nosso futuro, sobre a base antiga, certamente, mas de olhos abertos.

Digo isso, porque vejo muitos com dificuldade em enxergar isso. Que a visão de mundo antiga não é a mesma moderna. Que existe toda uma fantasia ao redor e por trás do que se pinta atualmente sobre a religião antiga. E, embora a fantasia possa ser reconfortante… a realidade também pode ser.

Talvez até mais.


Imagem: Montréal, via Unsplash.

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