O paganismo e o preconceito, II

No post anterior, eu falei extensivamente do risco que pagãos das diversas vertentes correm, devido a associações com uma visão “popular” do satanismo, da bruxaria e da macumba. Hoje, falemos sobre outro assunto, que é a pura falta de reconhecimento da própria existência de nossos deuses, enquanto deuses, ou de respeito pelo culto a eles.

Nossos deuses pagãos são muitos, e vastos. Eles vem em todas as formas, cores, gêneros e sexualidades. Os deuses pagãos, de certa forma, foram a primeira frente entre humanos e aquilo que, geralmente, é considerado mais que humano: são um passo a mais que o animismo puro (e, em muitos casos, o próprio animismo em si).

Durante séculos, milênios até, os deuses considerados pagãos foram adorados. Existem pouquíssimas, ou nenhuma, culturas que não cultuam algum tipo de deus ou deuses, e a grande maioria é ou foi politeísta.

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Löwenmensch (homem leão), uma das mais antigas imagens representando uma deidade, datando aprox. 40.000 anos. Via Wikicommons.

Não entrarei no âmbito de fé, aqui. O que se acredita é irrelevante, se é que se acredita em algo. Mas é interessante perceber que os deuses pagãos, embora numerosos e presentes desde o início da humanidade tal qual a conhecemos, são quase sempre desqualificados como chacota.

O motivo pra isso é simples. O paganismo de uma maneira geral, principalmente o europeu, foi conquistado. Quando da expansão do cristianismo pelo Império Romano, os deuses pagãos foram condenados e associados a demônios e espíritos malignos. Durante a Idade Média, seu culto foi condenado, reprimido e ridicularizado.

 

Isso faz muito tempo. Séculos. Eventualmente, esses cultos, embora não totalmente esquecidos, perdem ssu significado e tornam-se mero folclore, contos fantásticos, e uma mistura de cristianismo e paganismo. Nas áreas rurais da Noruega talvez ainda existam pessoas que dão alimento ao fogo, celebrando Lokke, mesmo sem saber a razão disso. O culto se torna superstição e mero costume. Mas permanece.

É particularmente interessante, por exemplo, o uso do termo mitologia para as estórias e, sim, mitos de religiões pagãs. Um termo que, por si só, é perfeitamente correto. E no entando, existe resistência em adotar esse mesmo termo para as estórias e mitos das religiões dominantes vigentes. Um mito nada mais é que uma estória considerada de relevância religiosa e cultural.

O mito tem um papel fundamental na sociedade humana. Mitos, de maneira geral, funcionam como uma força de integração social e cultural. Através do mito passamos o conhecimento de geração em geração, os costumes e as crenças de uma cultura e de um povo. O mito é personalíssimo da cultura onde se criam: mitos tupis não serão idênticos a mitos astecas, ou norte-americanos, ou semitas, ou árabes.

Nossas religiões têm mitos. Todas tem. E não existe nada de particularmente degradante em mitos serem reconhecidos como tal — muito pelo contrário.

A concepção moderna, popular, entretanto, associou o mito à ficção e à fantasia, a algo que não é necessariamente real. Então quando falamos em mitologia grega, ou nórdica, a percepção de ficção permanece. A visão de contos de ficção permanece.

Quando eu era criança, eu tinha muito apreço pela mitologia greco-romana. Tinha livros que tratavam da mitologia do ponto de vista da arte — que tratavam dos mitos como parte integrante da cultura local. À época, eu nunca entendia por que aqueles mitos eram tratados como tal, e outros não. O mito grego era sagrado para os gregos; ou melhor, o mito grego contava estórias sobre o sagrado pagão grego. Então por que estes eram fantasias, e outros não?

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Imagem em uma ânfora antiga da Ática, representando o renascimento da deusa Atena da cabeça do deus Zeus. Via Wikicommons.

Por que os deuses das religiões modernas podem ser tratados como existentes, ou no mínimo com respeito, mas os deuses do passado apenas como um erro, ou uma crença tola que as pessoas tinham, mas que transcenderam, como a crença em uma terra plana?

É uma dicotomia interessante.

Mas é fato que alguns mitos são tratados como ficção pela visão de mundo vigente. E, por serem tratados como ficção, aqueles que se voltam para eles são encontrados com atitudes que podem variar de incredulidade a ironia e à ridicularização de uma crença.

E isso afeta a percepção de um culto religioso diante da sociedade em geral. Meus símbolos sagrados não são reconhecidos como tal. Eu, a autora, não tenho nenhum interesse em particular para que eles sejam; mas é claro que há uma diferença muito grande entre o tratamento dado ao mjölnir, por exemplo, e a uma cruz.

Eu me pergunto como algumas pessoas reagiriam se, ao invés da típica cruz de madeira na parede de um gabinete (algo que, como servidora pública, já vi muitas vezes), encontrassem um pentagrama. Um mjölnir. Ou pior, uma fylfot (também conhecida como suástica; um símbolo religioso solar, datando de muito antes de sua apropriação pelo nazismo alemão).

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Buddha do navio de Osenberg, portando quatro suásticas. Decoração em um balde. Via Wikicommons.

Religiões que não são tratadas como religiões, mas como bobagens, alucinações, ou até mesmo modismos. E como tal, que não tem as mesmas proteções e privilégios de religiões oficiais.

Não que isso seja necessário para legitimar a fé (ou falta de fé) de qualquer pessoa. Mas quando sua religião não é sequer reconhecida como tal, é normal que existam muitos com uma visão distorcida de suas práticas, ou que as mesmas sejam colocadas em segundo plano. Principalmente, quando o praticante é jovem ou dependente de terceiros.

Quando sua religião não é reconhecida como tal, necessidades específicas dela são rejeitadas. Por exemplo, uma visita em seu leito hospitalar por um sacerdote de sua religião; restrições alimentárias específicas, se cabíveis; procedimentos específicos para seu funeral; o respeito e o espaço para seu local de culto; o reconhecimento de seus símbolos religiosos como tal; entre tantas outras coisas em que uma religião afeta a vida de um ser humano, no seu dia a dia.

Isso sem falar nos incômodos diários, nos comentários maldosos, em ter que explicar e racionalizar sua crença para que outros a respeitem — se é que respeitarão. Mais de uma vez tive que ouvir piadinhas relativas ao deus Thor (e sua associação, naturalmente, com o personagem da Marvel), porque como heathen, eu mantenho culto a esse deus. Não me incomodo; mas depois de um tempo, ouvindo pela milésima vez, cansa.

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Um homem persegue Hildur e cai no abismo. Presente no livro Icelandic LegendsCollected by Jón Árnasson, 1864. Via Wikicommons

Isso se estende até a mídia formal. Como esta reportagem: Elfos alteram até projetos de estrada na Islândia. Durante o vídeo, o narrador menciona “até os projetos de construção levam os elfos a sério”. Mas, claro, quem conhece um pouco a cultura islandesa, sabe que a crença em elfos (e outros seres) é parte da cultura e do folclore local, e muito presentes no país, até hoje, pré-datando o cristianismo em séculos.

O reconhecimento religioso não existe, neste caso. O assunto é tratado como uma curiosidade, apenas, e não como parte integrante de uma crença antiga e profundamente enraizada na cultura islandesa. Esta notícia veiculada no portal UOL, trata como “coisa de maluco”, e embora reconheça ao fim a real motivação da ação movida (preservação ambiental), desconsidera completamente a existência de uma crença muito real no local.

Imagine se fossem demolir a estátua de Cristo no Corcovado; qual seria a repercussão?

Pastores já pediram, inclusive, que a estátua da deusa africana Iemanjá fosse retirada do rio São Francisco (a ironia presente até no nome), em Petrolina, em nome do estado laico. E no entanto, como bem aponta a notícia, uma imagem cristã é cartão postal e ponto turístico no Brasil.

As mesmas religiões de matriz africana não tem espaço reservado na Vila Olímpica, em seu espaço ecumênico. Aparentemente, não são religiões o suficiente para meritar inclusão.

O reconhecimento de religiões como tal, pelo próximo e pelo estado (mais pelo primeiro que pelo último, em termos práticos), como culto real, que deve ser respeitado e tratado como tal, é apenas um dos muitos desafios de pagãos em geral.

Não é uma questão de proibir ou coibir piadas, usos de figuras mitológicas na cultura popular, ou coisas do gênero. Mas respeito — no sentido amplo da palavra — e reconhecimento que sua fé é, realmente, uma fé, importa.

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