Família, paganismo e história

Corre na Internet um “debate” (se podemos chamá-lo de debate) a respeito da posição do homem e da mulher na sociedade. Natural, considerand0-se as mudanças sócio-culturais trazidas pela Revolução Industrial e a era da informação. No meio heathen, a AFA (Asatru Folk Assembly) fez uma declaração sobre “valorizar suas mulheres femininas, seus homens masculinos e suas crianças brancas”. Racismo, homofobia e sexismo casuais à parte, eles mencionam apoiar os valores da “família tradicional”.

Mas o que é família tradicional?

Quando se imagina uma família, a primeira imagem — aquela nos ensinada desde crianças — é da família nuclear: mãe, pai e filhos. Atualmente, claro, devido à passagem do tempo e mudança de estilo de vida, mudanças tecnológicas e sociais, a constituição familiar é mais fluida. Temos mães e pais solteiros, irmãos que cuidam de irmãos, avós que cuidam de netos, famílias homosexuais, e toda uma diversidade socio-cultural, correspondente às nossas evoluções culturais.

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Macacos bonobos. Via Wikicommons.

Pode-se dizer, de certa forma, que a família é a base de qualquer cultura humana. O culto ancestral, como já mencionamos antes, pré-data até mesmo o culto aos deuses e espíritos, e em diversas culturas no mundo os próprios deuses são considerados ancestrais, situação esta encontrada desde as diversas culturas africanas à cultura chinesa pré-dinástica, em povos nativos americanos e do norte da Europa.

Não é difícil entender porque. A espécie humana, como a maioria dos primatas, é social: ela se organiza naturalmente em grupos, muitas vezes grupos familiares unidos por laços de sangue e reciprocidade. Entre primatas, é comum a formação de comunidades com vários machos e fêmeas, com organização social diversa (entre bonobos elas tendem a ser matriarcais e não-violentas; entre chimpanzés comuns, patriarcais e mais agressivas), que se auxiliam mutuamente e possuem hierarquia interna.

A espécie humana, devido à sua grande fragilidade nos primeiros anos de vida, demanda uma proteção social muito maior que outros mamíferos. O ditado “precisa-se de uma vila para criar uma criança” expressa isso muito bem: o cuidado com a cria humana demanda muito tempo, atenção, e esforço por parte dos indivíduos envolvidos — no caso, da comunidade onde o humano nasce. Principalmente no passado, onde a situação de vida era mais arriscada e os esforços para, por exemplo, alimentar-se, eram maiores. O mesmo ocorre com pessoas de mais idade, que já não podem realizar as tarefas diárias com a mesma facilidade, e necessitam de auxílio muitas vezes inclusive para cuidar de si.

Na espécie, temos diversas formas de organização social. Algumas sociedades praticam a poligamia, ou seja, um homem tem acesso a diversas mulheres com as quais reproduz; em outras, a poliandria, onde a situação é reversa. Muitas praticam (mesmo que apenas em teoria) a monogamia.

Mas na grande maioria, o conceito de família se estende a “parentes”, ou seja, a irmãos, primos, tios, tias e avós. Muitas espécies mamíferas que se organizam socialmente em bandos o fazem em termos biológicos, onde as fêmeas tem relação familiar entre si. É o caso de lobos, onde a alcateia é formada por um casal reprodutor e seus filhotes, leoas e elefantas, que geralmente tem relação de sangue, e muitas outras. Golfinhos e baleias foram pequenas sociedades, inclusive com cultura própria, e a separação de um indivíduo de seu bando causa grande estresse no animal isolado. Sabe-se que em locais com abundância alimentar, golfinhos podem viver em bandos de até mil indivíduos.

Entre os romanos, o conceito de família seguia a linha patriarcal: a descendência era dada pela proximidade de consanguinidade na linha masculina (pais, filhos, netos, bisnetos), e as mulheres eram frequentemente ignoradas ou apenas consideradas como colaterais, ou seja, na falta de herança familiar masculina.

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Mulher e filhos. Acredita-se representar a família de Valentino III. Via Wikicommons.

Quando a mulher se casava, deixava de fazer parte da família “original”, para ser integrante de outra família. Ela deixava o convívio social de nascença para aquele adquirido no casamento. Isso significava também deixar o culto a seus ancestrais de sangue adotar o culto ancestral da família que passava a integrar, no caso romano. A própria palavra romana para casamento (matrimonium) indica sua função (gerar filhos, ou seja, criar mães), em contraste com a palavra consortium, que se refere a unir propriedade; consortium poderia ser usado como sinônimo para casamento, porém, é mais comum após a conversão ao cristianismo.

De acordo com a antropologia moderna, a família não é necessariamente definida pela linha de consanguinidade. O conceito de adoção é praticamente universal. Em diversas famílias e culturas, também é considerada a relação adquirida durante o aleitamento, por exemplo — irmãos de leite, um conceito relativamente comum e frequente durante a Idade Média, conjugação de famílias mistas (onde cada adulto traz seus próprios filhos), entre outras formas.

Também era comum que um filho fosse “criado” por outrem, em treinamento profissional como aprendiz, por exemplo, desde a tenra idade; que cunhados e cunhadas fossem considerados parte da família e, portanto, dignos de proteção no que se refere a vingança, por exemplo; e diversas outras configurações, como o irmão de sangue, este sangue referindo-se não à relação biológica entre ambos, mas o sangue de um juramento de fidelidade e auxílio mútuo, considerado tão sagrado quanto o laço familiar (se não mais).

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Padeiro medieval e seu aprendiz. Via Wikicommons.

O ditado blood is thicker than water, que alguns de nós já podem ter encontrado por aí em sua versão inglesa, em filmes, livros e afins, deriva, ao contrário do que se imagina, da expressão the blood of the covenant is thicker than the water of the womb — ou seja, o sangue do juramento (covenant significando acordo, juramento, pacto) é mais grosso (ou seja, duradouro) que a água do útero (ou seja, que o laço familiar).

Na China, a dedicação de um filho a seus pais e seus ancestrais era (e ainda é) considerada uma grande virtude, se não a principal virtude. No Japão moderno, esta fidelidade e senso comunitário muitas vezes se transfere para a estrutura corporativa, onde pessoas se dedicam enormemente à “saúde” e crescimento das empresas onde trabalham.

Muitas culturas antigas mantinham uma visão mais comunal que individual (salvaguardada exceções). A saúde e persistência da família muitas vezes tomava prioridade sobre a saúde e persistência do indivíduo. Não era à toa que os feudos de sangue eram (e são) tão comuns.

Atualmente, aqueles que praticam a Ásatrú ou o heathenismo costumam usar o termo kindred para definir seus agrupamentos religiosos. Kindred, uma palavra inglesa, é um termo um tanto quanto incorreto. Literalmente, ele deriva de cyn (relação de sangue) e ráeden (condição). Em um dicionário moderno, kindred significa:

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  1. Os parentes de uma pessoa, coletivamente; família; parentela; parentes.
  2. Um grupo de pessoas relacionadas umas às outras; família, tribo ou clã.
  3. Relacionamento por nascimento ou descendência, às vezes por casamento; parentesco.
  4. Relacionamento natural; afinidade.

Enquanto um adjetivo, pode significar:

  1. Associado por origem, natureza, qualidades, etc.
  2. Que tenha as mesmas crenças, atitudes ou sentimentos.
  3. Relativo por nascimento ou descendência; que tem parentesco.
  4. Pertencente a parentes.

De todos os significados, deixa-se bem clara a relação de parentesco, de sangue, entre as pessoas envolvidas no kindred. Naturalmente, o termo, tal qual o usamos, não tem exatamente esta conotação: ele se encaixa mais na definição que tenha as mesmas crenças, atitudes ou sentimentos.

Este termo não foi escolhido à toa. Ao contrário de um termo que seria mais adequado (folk, por exemplo, no sentido de povo), kindred estabelece de cara uma relação próxima, de auxílio mútuo e de fortes relações interpessoais de confiança e respeito. Kin era um dos mais importantes aspectos das relações sociais germânicas.

De forma similar, temos o termo inglês kinship, que poderia ser traduzido como parentesco. mas kinship, em termos antropológicos, vai muito além do que a relação de sangue: muito pelo contrário, em determinadas culturas, ela se estendia inclusive a associados por (como já mencionamos) juramento, criação, amizade e até relacionamento de negócios. Não era incomum ver parceiros de negócios também negociarem laços de sangue entre, por exemplo, seus filhos, de forma a solidificar alianças.

Assim como não era incomum negociar casamento entre tribos e reinos, pelo mesmo motivo. Um laço de parentesco estabelecido pelo casamento também gera obrigações e alianças estratégicas fora do casal.

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Família Sami, na Suécia. Via Wikicommons.

Entre os povos germânicos antigos, assim como a maioria dos povos, casamentos não eram feitos por amor, afeição, ou situações do gênero. Embora fosse possível (como o é entre outras culturas que ainda mantêm tais práticas) que o amor e a afeição fossem parte da causa, ou até mesmo que surgisse durante a vida casada, a principal função do casamento era o estabelecimento, acúmulo e diversificação de propriedade (às vezes, até mais importante que a geração de filhos; também não era incomum casar uma filha na esperança de ter homens capazes de vingar alguém).

Nós sabemos que, relativamente recente, o casamento era planejado entre as famílias, sem o consentimento expresso da noiva (consentimento sendo uma inovação cristã, baseada e inspirada na lei romana); o pai esperava que interessados em sua filha aproximassem-se dele, e requisitassem o casamento. A vontade da mulher não era considerada (embora, claro, em casos particulares).

Antes disso, é bastante provável que o casamento  surgisse a partir de raptos e estupro, considerando-se que muitos dos povos em questão viviam uma vida semi-nomádica e guerras frequentes. De fato, há certos indícios que tal coisa acontecia até mesmo durante a era viking.

Também era comum o concubinato, e a existência de relações sexuais fora do casamento, embora, para fins de herança, apenas os filhos legítimos contassem como herdeiros. Homens ricos podiam (se pudessem pagar) também ter mais de uma esposa, e numerosos filhos, embora tal coisa não fosse abertamente reconhecida, ou expressamente negada.

Curiosamente, a lei norueguesa admitia a possibilidade de ambos os pais, não-casados, assumirem filhos “ilegítimos”, e deixar herança a eles. Também era possível a herança de filhos nascidos de uma concubina livre, com a qual o homem se deitava e relacionava abertamente, desde que ambos vivessem juntos por mais de vinte anos, algo similar à união estável de hoje.

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Porcentagem comparada de filhos nascidos fora do casamento (1980-2007) em países selecionados. Via Wikicommons.

Na Islândia, há certa evidência que o casamento era proibido a pessoas pobres, devido à falta de recursos disponíveis e a necessidade de manter uma população compatível com o ambiente hostil em que se vivia. Similarmente, filhos de escravos (quer homem ou mulher) não podiam se tornar herdeiros. No caso da mãe ser a escrava, o homem poderia libertá-la para casar-se com ela, mas o oposto não era possível.

Incesto, muito provavelmente, era mal visto em termos de família próxima; mas entre primos, por exemplo, ou no caso de um homem casar-se com irmãs sucessivamente, ou com uma mãe e uma filha, existem nas sagas.

Não havia uma idade fixa mínima ou máxima para efetuar-se casamentos; sendo um acordo econômico mais que de relacionamento, é possível que pessoas se casassem ou fossem prometidas antes de tornarem-se sexualmente maduras, e que esperassem até tal coisa acontecer para começar a relacionar-se sexualmente. Assim, via-se que o sexo, e a reprodução sexuada, não era exatamente necessária para a existência de um casamento.

Já o divórcio era possível, embora precisasse da participação de algum homem relacionado com a mulher, já que ela não podia representar a si mesma diante da tíng, excetuando-se a completa falta de quem o fizesse. Entre os homens possíveis incluem-se cunhados e sogros: a família de seu marido também é parte responsável pelo destino dela, e capaz de decidir sobre seu futuro econômico e familiar (cunhados, sogros e até mesmo filhos eram responsáveis por aceitar ou não futuros casamentos de uma mulher viúva ou divorciada).

Vê-se a importância da família estendida, mais uma vez.

Baseado em tudo isso, percebemos que a família tradicional, monogâmica (ou majoritariamente monogâmica, pelo menos), estabelecida por pessoas unidas em matrimônio e laços de amizade e amor, é um conceito relativamente moderno.

E assim como o casamento deixou de ser uma transação econômica para uma em que ambas as partes encontram-se livremente de acordo, não há razão para imaginar que tal família não possa assumir outras configurações (sem, claro, excluir as famílias “tradicionais”). Nós não vivemos mais na Idade Média, ou na Idade do Bronze, onde a sobrevivência de uma tribo depende dos relacionamentos de todos os seus integrantes, onde a mortalidade infantil era alta, onde a manutenção da propriedade era vital para a sobreviência e continuidade do nome familiar.

No mundo atual ocidental, todas essas coisas são possíveis, mesmo com configurações familiares diversas do núcleo, se não na prática, ao menos na teoria. O mundo mudou, e o paganismo germânico, como era na época, aceita o mundo como ele é — e não de acordo com um ideal pré-estabelecido.

Isso não quer dizer que os valores associados à família e a tais relações, em termos, por exemplo, da paz familiar e da união entre pessoas, deve ser abandonado. Claro que não. Apenas, que eles podem ser adaptados a uma nova realidade, como os próprios germânicos se adaptam às suas novas realidades.

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Taxa de mortalidade (azul) e natalidade (verde) na Alemanha, 1946 a 2006. Via Wikicommons.

A taxa de natalidade humana vem caindo, em praticamente todos os países desenvolvidos, mas mesmo assim, nossa espécie está muito longe da extinção. A tecnologia moderna permite que casais que normalmente não teriam filhos, possam tê-los. Os conceitos e entendimento científico sobre sexualidade, reprodução e o próprio ato sexual, evoluiram enormemente desde a época pagã.

Nós não vivemos no mesmo mundo que eles, sob as mesmas condições, pressões, e anseios; então por que nos limitarmos às suas mesmas limitações em um aspecto que, mesmo à época, apresentava tão grande diversidade e flexibilidade?


Imagem via Unsplash.

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2 comentários sobre “Família, paganismo e história

  1. Lendo o seu texto me veio à mente um outro que encontrei há pouco tempo e que pode ser visto no endereço https://asatrueliberdade.wordpress.com/2015/07/11/homossexualidade-naturalidade-e-paganismo-nordico/ . Claro, são abordagens completamente distintas, mas o foco não é tão distante. No texto, o autor relata que ainda hoje temos este estigma de família padronizada pelos cristãos e que é comum estar intrínseco na formação dos povos.

    Completando, li o texto do BJØRN ANDREAS BULL-HANSEN https://bull-hansen.com/2016/09/03/viking-skills-6-parenting/ que compara o pai tradicional ao pai viking.

    Ambos textos são, obviamente, visões diferentes do que se pode chamar de família, e de como essa concepção é ou não interessante, mas acho que são boas bases para auto-conhecimento.

    Curtido por 1 pessoa

    1. João, obrigada pelo comentário!

      Lerei o texto do Bjorn, que não conheço. Quanto ao da A&L, até faz sentido a similaridade, já que o autor é meu amigo e nós sempre discutimos esses assuntos em conjunto, haha. E sim, nós temos este estigma que nem é cristão — é mais vitoriano, precisamente falando. Se for olhar a época medieval, mesmo após a conversão, ainda havia muita flexibilidade nas famílias e no que se entendia por família, mas conforme a cultura foi se estabilizando e países e nações foram surgindo, as leis foram surgindo mais estritamente (fora do costume), e esse padrão começa a surgir.

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